pode virar “peteco” (feedback)

 

Mais elemento base das relações pessoais e profissionais…

ENTENDIMENTO

Nas interações entre as pessoas é muito comum e também profícuo  que hajam interpretações diferentes sobre determinado tema. Afinal as pessoas tem histórias, conhecimentos,  experiências e  repertórios distintos.  Isso é o grande!

Quando falamos dos processos de crescimento e feedback,  é importante cuidar do entendimento  do que está sendo dito. Uma dica nesse sentido é tentar  manter o foco no ocorrido, na circunstância que originou o posicionamento para  obter maior clareza possível da situação.

Enorme exercício, diga-se de passagem,  principalmente se você não gostou ou discorda do que ouviu...

Observe-se internamente. Sua memória pode começar a trazer à tona histórias, justificativas e argumentos de toda ordem para contrapor a crítica, a observação que está recebendo.

Uma expressão muito engraçada do linguajar mineiro exemplifica bem esse estado mental …  “a mente vira um peteco”… (rs)   Significa que virou uma…

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Escolha a janela

Por Alexandre Garcia

“Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião. A ansiedade de voar era enorme.

Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem.

Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens,chegando ao céu azul.

Tudo era novidade e fantasia..

Cresci, me formei, e comecei a trabalhar.

No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante.

As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia.

No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal.

O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse.

Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido.

As poltronas do corredor agora eram exigência .

Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem,comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos ‘acasos’ do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa,

precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível..

O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona.

Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque..

Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar.

E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara.

Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga.

Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu.

Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto.

E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer.

Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista..

Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida.

A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens,

que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.

Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade

de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e ‘ganhar tempo’, pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar.

A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante.

Não sabemos quanto tempo ainda nos resta.

Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.

Afinal, ‘a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos’.”

Processos de desenvolvimento assistidos… (coaching)

Recentemente completei a jornada de certificação para o exercício profissional de coaching pessoal e executivo. Reafirmo o que disse nessa postagem e a reapresento.

Você já experimentou algum desenvolvimento de forma “assistida”,  com ajuda personalizada,  feito só para você?

Compartilho aqui algumas informações sobre esses tipos de processos de capacitação individual.   Embora o termo “coaching” esteja sendo utilizado para muitas e distintas finalidades,   em um de seus  “desenhos originais”,  enquanto processo estruturado de desenvolvimento,   é uma das formas mais interessantes para trabalhar a ampliação  de competências.

Para os leitores que não estão muito habituados ao termo,   “Coach”  é um termo inglês que passou a ser usado inicialmente na Universidade de Oxford,   fazendo referência aos orientadores ou tutores particulares  que tinham como responsabilidade,   preparar os estudantes para os exames da universidade.

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Se você se deparar com a palavra “coaching”    trata-se do processo de desenvolvimento em si.   Se ouvir “coach” refere-se ao treinador, ao condutor do processo e  “coachee” à pessoa,  que está sendo orientada…

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A questão da disciplina

Em tempos de confusão acerta do que é ou não “disciplina”,  considerei muito prática a explicação do Gikovate. Veja:

“A palavra “disciplina” já teve conotação positiva; relacionava-se com valor e era considerada uma aquisição indispensável para o desenvolvimento emocional das pessoas.

Ultimamente, passou a ser associada a autoritarismo, a disciplina militar. Pais disciplinadores passaram a ser vistos como pessoas antiquadas, como quem não ama de verdade os filhos. Damos a certas palavras conotações de ordem moral e é comum não sabemos sequer o que elas realmente significam, como nesse caso.

“Disciplina” pode ser definida como a vitória da razão sobre as emoções. Não que devamos reprimir sempre as nossas emoções em nome da razão. As emoções são inerentes a nós. O ideal é que possamos cada vez mais aprender a lidar com elas, encontrando um equilíbrio adequado entre razões e emoções. Trata-se de uma conquista difícil, diretamente relacionada com a maturidade da pessoa. Muitas são as circunstâncias em que existe um antagonismo entre emoção e razão. Na criança vence a emoção, mas, com o crescimento, a razão deveria transformar-se em poder central das decisões. É uma pena que isso só ocorra a certo número de pessoas – fortes o suficiente para suportar a frustração relacionada com a renúncia.

Vamos a um exemplo esclarecedor que já foi usado por muitos autores. Quando, numa manhã fria e escura de inverno, o despertador toca, nos informando que é hora de levantar, passamos a viver um dos conflitos mais duros entre a razão – que nos lembra de nossos deveres – e a preguiça – emoção natural em nós e que se recusa à obediência. Das pessoas que se deixam vencer pela preguiça, pouco se pode esperar em termos de sucesso nas atividades relacionadas com o trabalho. Sabemos que este se distingue do lazer pelo caráter obrigatório, pelos compromissos que temos com outras pessoas e pelo rigor com que seremos julgados se não obtivermos resultados aceitáveis.

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Se o compromisso estiver relacionado com o lazer, desde que não tenhamos combinado nada com ninguém, não levantar ofenderá “apenas” a nós mesmos, que nos avaliaremos como fracos. Não aprovaremos nossa conduta se tivermos faltado a um compromisso esportivo ou se tivermos perdido a hora para uma viagem de lazer. Isso nos fará mal, mas procuraremos nos enganar, dizendo que na próxima vez isso não vai acontecer. Se tivermos nos comprometido a acordar cedo para fazer algum tipo de ginástica e a preguiça nos vencer, não será nada bom para nossa autoestima, pois nos sentiremos “para baixo”. Poderemos fingir para os outros que estamos bem e que a cama estava uma delícia, mas não poderemos jamais enganar a nós mesmos; sabemos que fraquejamos e lamentaremos por isso.

Por outro lado, se o compromisso for com terceiros e envolver atividades profissionais importantes, os resultados objetivos serão catastróficos – além do prejuízo maior à autoestima. Caso um vendedor falte ao compromisso com seu cliente, talvez não seja perdoado e não tenha outra chance. O mesmo vale para o funcionário de uma empresa que sempre chega atrasado: acabará demitido, evidentemente. O médico que não comparecer aos compromissos com seus clientes será dispensado, e assim por diante.

Além da ofensa à autoestima, esses profissionais sofrerão todo tipo de sanção objetiva, de modo que não terão dinheiro nem o respeito dos outros.

Inversamente, aqueles que se reconhecem capazes de ter uma razão vencedora, que domine as emoções em geral, se tornam cada vez mais fortes, à medida que acumulam sucessos nas disputas que travam com eles mesmos.  E acabam por desenvolver um novo tipo de prazer, dos mais importantes para a nossa psicologia: o prazer de ser forte o suficiente para renunciar a um prazer imediato em favor de uma recompensa maior que virá em algum momento do futuro. Assim, a renúncia aos prazeres imediatos se transforma em um novo e maior tipo de prazer, o prazer da renúncia. Quem quiser dar certo no jogo da vida terá de se desenvolver até chegar a esse ponto de maturidade interior. Essas pessoas são capazes de dirigir a própria vida, pois deixam de ser escravas das emoções.

É preciso cautela, pois, à medida que a renúncia se transforma em fonte de prazer, ela pode passar a ser buscada de modo ativo e prejudicial. Orgulhar-se de ser capaz de fazer renúncias necessárias é coisa boa e ponderada. Entretanto, renúncias indevidas, buscadas apenas com o intuito de provocar a sensação de superioridade e de força extraordinária, são um excesso, algo que nos afasta do bom senso e já contém os sinais característicos dos vícios.”

 

(Trecho do livro “Os sentidos da vida”, p. 81-84),  de Flávio GIkovate – Publicado no próprio site do autor pela sua equipe, em 07.08.2018

O império do consumo – Eduardo Galeano

“A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.”
– Eduardo Galeano

Eduardo Galeano – foto: Samuel Sánchez

 

O império do consumo

“Esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.”
– Eduardo Galeano

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.

Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Fonte: Publicado originalmente na revista Carta Capital, em 30.12.2010.

Fonte –  Revista Prosa Verso e Arte,  em 01.10.2018

Mais sobre Eduardo Galeano:
Eduardo Galeano (textos, vídeos, crônicas e contos)

“como se encontrar na escrita…”

Estava eu lá.  Em pé. No canto do auditório repleto. Olhos atentos. Conversa da boa.  Era o lançamento do livro “Como se encontrar na escrita”.  A autora,  a Ana Holanda .. minha professora de “escutar por dentro”,   de “botar reparo por fora”,   entregando elementos de valor.  Verdadeiras sementes pra gente encontrar esse caminho.   O da escrita.

Recordei de quando nasceu o meu  apreço e afeto por ela. O que aconteceu bem antes de conhecê-la pessoalmente.   Tudo brotou por meio da palavra.  Da escrita dela. No face.  Palavra que me tocou e sacudiu.  Palavra que teve meu consentimento imediato. Foi assim.  Ali. Assim vi brotar a admiração.

Depois disso, o curso em Minas,  as nossas histórias. De riso.  De dor.   Todas, experiências de  muito valor.   Pessoa do bem a Ana.

Na fila,  esperando a minha vez, a observo autografando o novo livro.  Logo penso no tamanho da humanidade que ela abriga.   Uma humanidade afetuosa, suave e despretensiosa.  É ela.

Um flash do livro  pra você se encontrar na escrita:

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“É preciso se apoderar da palavra e entender que uma boa escrita está relacionada com a maneira como se olha para a vida.

Existem boas histórias para serem contadas em todos os lugares. Elas podem brotar dos encontros mais simples e  desprentensiosos.  Tudo depende do olhar.”

Que bom Ana, que você percebeu, lá naquela palestra de 2015, que o que você guardava fazia sentido para outras pessoas.

Que suas palavras, encontrem muitas almas e as ajudem a florescer caminho afora.

Você me inspira,

Com afeto,

Darlene

Acessem a Ana pelo www.anaholanda.com.br

Ana, falando da Escrita Afetuosa,  no TED

Performance na prática.

Me peguei pensando em “performance”.  Palavra sonora, muito dita atualmente. Com poucos cliques e você a encontra nos títulos: “Como ser um profissional de alta performance”,   “10 regras para uma vida de alta performance”,   “7 características dos líderes de alta performance”.   Eu mesmo, já usei essa palavra muitas vezes nos meus artigos.  Soa como algo de “valor” que todo mundo busca.

“Performar bem” de repente vira  ambição em várias dimensões.
“Quero ser um profissional de sucesso.”
“Quero ser um bom companheiro, bom marido.”
“Quero ser um bom irmão”.
“Quero me alimentar  bem.”
“Quero ter hábitos e uma vida saudável.”
“Quero ter uma ótima performance física.”

Olhando assim assemelha-se ao conceito de “ser bom”.  Ser bom não,  ser ótimo. (rs)  As pessoas anseiam por excelentes desempenhos  em busca da felicidade,  de aceitação, de reconhecimento. E  quem não?

A realidade tem jogado na nossa cara que não é comum ser muito bom “em tudo”.  Dá pra sem melhor em algumas coisas, mais  que em outras. Esqueça a mentalidade “de graça”.  As realizações demandam esforço, concentração.  Dependendo do estágio de vida e  do momento específico da pessoa, é natural  a necessidade de uma concentração maior  e de dedicação em uma dessas dimensões.

Mas o que significa ALTA PERFORMANCE pra você?

Se for  “influenciar os outros para obter o que você quer”,    “ter maior controle da vida”,   ou  “concluir iniciativas quaisquer”…   então aqui você  não encontrará ajuda. Aqui, nesse “dedo de prosa”  sintético (não é um trabalho científico)   vou explorar algumas estratégias que podem favorecer o seu desempenho e a sua busca por melhores resultados.

Se puder,  porque não, ter  atuações mais eficazes? Afinal,  a gente está aqui pra evoluir, pra aprender, para uma jornada.

E você já parou pra pensar nos seus ofensores de desempenho?  O que te impede de percorrer essa jornada bem? O que você faz ou o que você pensa que impacta diretamente a sua performance?

Eu, por exemplo,  me pego fazendo muitas coisas ao mesmo tempo.  Tenho a sensação de que agindo assim distribuo a atenção e perco a oportunidade de melhores resultados.  Isso é bom ou ruim?  Como você se sente com várias iniciativas em execução de forma paralela?

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Como carregar tantas coisas ao mesmo tempo?

Estive pensando em atitudes, comportamentos que pudessem me ajudar. Com o propósito de ser melhor.  Sempre. Parece até um `mantra”.  (rs)

Percebi que algumas práticas fazem muito sentido na organização da vida, do tempo, em prol das expectativas de realização.    Embora sejam  óbvias,  nem sempre  se traduzem em comportamentos efetivamente.  Sabe aquele conhecimento que você tem mas que fica guardado na gaveta, porque você não usa nunca?   Insistem em ficar na ilustração mental   e alojarem-se facilmente  nos discursos.    (já sei, já sei, já sei)   De tanto aparecerem em livros,  artigos entram, por vezes,  para o rol das leituras de “auto-ajuda”.

Essa tal de  “auto-ajuda”   já  produziu tantas reações que acabou por depreciar-se. Passou a ser utilizada como um “chavão”,  para qualificar  determinados tipos de conteúdos e textos.  Ah .. o ser humano com suas manias de “enquadramento”  (rs).

Mas o fato é que:  nínguém.  Ninguém, além de você mesmo,  poderá resolver,  colocar qualquer ideia ou estratégia em ação, para ser melhor.  Então…  uma auto-ajuda, até que vai bem.   É uma boa receita.   Perdoem-me os críticos de plantão.

E por falar em práticas que deram certo,  quer conhecer algumas?

Prática:  FOCO.  Tenha claro os seus objetivos fundamentais para determinar o nível de atenção a cada um deles.  (autoconhecimento)

Imagine,  por exemplo, um jovem que deseja conquistar uma posição num curso superior.  Sua etapa de preparação requisitará  mais ênfase  e tempo para esse objetivo, do que para outros.  Temporariamente.

Isso não quer dizer que as outras dimensões serão adormecidas,  mas circunstancialmente poderão  ter menos  dedicação ou atenção.   Objetivos específicos como passar no vestibular,   iniciar um novo trabalho,   um novo emprego, uma nova relação demandarão uma dedicação pontual  para seu desenvolvimento e para sua conquista.

Prática:  PRIORIZE.  Faça escolhas ponderadas. Não será possível realizar TUDO o que quer.  (tradeoffs)

O ideal é estabelecer um equilíbrio entre as várias vidas. (Leia artigo equilibrio)  Contudo,  em momentos de metas arrojadas e que dependem de uma maior dedicação, cabe um estudo do emprego e aplicação da atenção.  Também cabe incluir “negociações”,   “acordos temporários” com as outras dimensões,  com a família, com a namorada, com o esposo,  .. etc.

Definir as metas a serem alcançadas ao longo do tempo.  Não basta querer,  é preciso especificar.   (SMART)  Fiz uma postagem recentemente sobre definição de METAS. Se lhe interessar bastar clicar aqui – Estabeleça METAS e persiga-as.

Por exemplo:  Se deseja mudar de trabalho,  pense sobre qual tipo de trabalho quer desenvolver,  em que contexto (empresa, cidade, negócios),  o que precisa (etapas) para que isso ocorra,   quanto tempo será necessário para que possa realizar essa atividade,  como vai distribuir esse plano no tempo,  como vai medir o resultado.
Organizar.  Isso.   Organizar.

Dica:   PLANEJE.  Estabeleça minimamente as suas grandes iniciativas, ações,  e suas metas no TEMPO.

Classifique os itens da sua lista.  Veja o que é mais relevante,  o que é mais importante e urgente.

Prática:  PLANO SEMANAL.   Faça uma visão (no início da semana) de todas as atividades relevantes e deixe sempre à vista. Num local que você acesse facilmente.

Ao realizar seu movimento de planejar, mesmo que “alto nível”,   sua mente já estará se preparando para vivê-las.   Já deu um passo.  O de pensar antes de fazer.

Não tente controlar TUDO.  Isso não é possível.  Por isso esteja preparado para as inserções não planejadas.   TODOS OS DIAS.

Prática: SLOT do IMPENSADO.   Reserve espaço na agenda semanal para lidar com as adversidades,  para resolver questões não previstas.  Elas existem. Sim.

Outro importante ofensor da performance chama-se “preocupação”.     Desconstruindo a palavra,  “PRE – OCUPAÇÂO”,  significa  ocupação  antecipada da mente com algo.    Daí,  desvia-se do  foco,  perde-se em atenção, reduz a energia.

Por exemplo,  inquieta-se ou preocupa-se demasiadamente com o futuro?

Prática:  ATITUDE. Pare,   pense e analise o que é verdadeiramente possível de ser feito.   O que está na sua esfera de ação.

É muito comum a ocupação da mente com problemas ou situações para as quais não temos qualquer  ação direta. Para as quais inexiste a capacidade individual ou a possibilidade de intervenção.  Assim, esses pontos  ficam instalados na mente,  “ocupando”  espaço  e desviando a atenção  do que de fato deveria.

Para os casos em que você não tem possibilidade atuação direta, estacione. Deixe para quem tem a responsabilidade direta na solução.   O resultado afeta você?  se sim,  o que você pode fazer ?

Prática:  CONTINGÊNCIA. O que de pior, pode acontecer?  Pense nos que você faria,   se o pior caso ocorresse?  Esteja preparado para encarar de frente o pior cenário e lidar com ele.

Feito isso,   você  deixará  sua mente mais livre para estabelecer  foco, concentrar-se no que é mais importante,  urgente.

Não fique sozinho.  Escolha amigos ou colegas em quem você confia e compartilhe seus planos,  objetivos  e  metas fundamentais.    Troque idéia e aprimore o que você já desenhou.   Uma pessoa em quem confia pode dar sugestões e lhe chamar a atenção para pontos que talvez você não tenha se atentado.

Prática:  COMPARTILHAR.   Ao dividir com alguém confiável,  você está reafirmando o seu compromisso e também estará angariando um companheiro de jornada,  que poderá te estimular e participar junto.   #tmj

Alguma dessas práticas cabem no seu contexto?  São aplicáveis?

Se o que estou dizendo a você, te fizeram pelo menos pensar nas suas prioridades,  nas suas ambições pessoais, profissionais,  familiares,  já fico feliz.  Se  algumas dessas dicas  foram úteis  o suficiente para sair do plano mental e terórico,  terá valido a pena.

Tenho constatado,  dia a dia,  que a crucial performance a ser conquistada é .. “ser humano”.  Essa é a grande prerrogativa e a maior de todas as conquistas.  Deixar sua humanidade manifestar-se a favor da vida, do que ela representa, de fato e de direito.  Permitir a sua essência manifestar-se livre e levemente,  sem os temores guardados ao longo da vida e restritivos à própria expressão, à alma,  à autenticidade.

Ser um ser humano íntegro.

Integral.

Ser digno,  fazer juz à vida que tem nas mãos. A humanidade agradece.

Bjo e até a próxima,

Darlene

 

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