Quero porque te quero

Não sei se já te contei sobre a Tia Dagmar. Dia desses ela me mandou uma mensagem por whatsapp. Um convite para uma saída, diria “poética”. Ir à Avenida Paulista onde encontraríamos poetas autografando suas obras.

Adoro isso… literatura, as escritas das pessoas, poesias .. ahhhh!! Convite adorável. Manhã de sol e frio agradável. Ali conhecemos os poetas (Zack Magiezi, Wally Wilde, Lucas Lujan, Rafael Cavalcantis), e suas obras. Bem alí de frente à Casa Das Rosas, lugar histórico e providencial.

Trago um fragmento da obra do Lucas (Tamanho de flor), cuja forma de escrever, me encanta. Seja pela naturalidade, seja pelo poder de escrever o complexo de um jeito simples.

Caído, aprendi que no chão se enterra, mas também se nasce. Vi que com uma pá uns abrem covas, já outros plantam flores. Cabe a cada um o sentido que dará à terra onde tropeçou. (pág. 05 – o inverno)

Tia Dgmar é assim… planta flores. Uma figura humana inspiradora. Seus interesses pelas artes, pela escrita e pela educação são notórios. Sua energia, para manter-se ativa é um exemplo. Nesse mes lança seu livro – “Quero porque te quero”. Onde o amor é retratado na lenda do girassol. Rendo a ela hoje minha homenagem, minha gratidão. Parabéns por mais esse feito..

grata por te-la na minha vida.
Parabéns… e um beijo no seu coração.

por Clarice Lispector

Cada pedaço de mim sabe o inferno que é ser sol em noites de chuva, ser cor nos cinzas dos edifícios, ser luz na escuridão das manhãs.

Cada todo de ti sabe a delícia que é ser flor nas asas do vento, ser cristal nos olhos das fadas, ser azul no fundo do mar.

Cada suspiro de nós sabe a angústia que é ser só um na multidão dos dias, ser muito na pobreza da esquina, ser ninguém na roda da vida.

Clarice Lispector

compartilhado pela amiga Ana Lúcia Araújo,

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.


 Cecília Meireles, em ‘Viagem’ (1973)

Broa de afeto…ou Bora com afeto.

Coração na boca quando cheguei em casa, tentando engolir “sei lá o quê”. Algo indigesto. Enjôo chato. Essas sensações costumam triscar cada pedacinho da pele da gente. Como se estivéssemos ligados num circuito elétrico.

O caminho natural e recorrente seria entrar para o quarto escuro como se ali pudesse reduzir as sensações ruins e não ouvir nada. A vontade era essa. O vácuo do silêncio.
O duro é que tem uma voz que não para de falar… a de dentro. A interna.
Pensamentos: “me deixem aqui – em paz”… . UFAAAa

Chega uma mensagem de uma querida amiga: Estou passando n a sua porta. Rapidinho. Só pra deixar um mimo. De camisola mesmo, com um sorriso largo, me entrega uma quitute. Uma que eu ADORO. BROA aerada da Casa Santa Maria. Foi ela mesmo que nos apresentou.

Tamanha delicadeza e afeto. Talvez nem cogitasse o bem que estava me fazendo. Chegou bem na hora de aquecer um coração doído.
Amigos são assim. Escutam sei lá por onde e chegam nas melhores horas pra cuidar da gente.

Alguns mais poetas e brincalhões diriam – foi adivinhação. Palavra antiga e que acorda muitas memórias.

Ali.. sozinha, … chorei, chorei. Dizem que chorar é terapêutico. Faz transbordar o que está preso, incomodando, entalado no peito. Desentala. Quem nunca?
Como se isso fosse a solução. Sei que não. Mas ajuda!!. Lembrei daquela música que aprendi desde criança. (de Paulo Vanzolini)

“Chorei.. não precisei esconder, todos viram, fingiram… pena de mim não precisa… Assim como eu chorei qualquer chorava. Dar a volta por cima que eu, quero ver quem dava. Um homem de moral, não fica no chão, nem quer que mulher lhe venha dar a mão. Reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima…

Sorte a minha que a BROA estava bem ali… me esperando. Abraçando o estômago.. aliviando. Que muito mais que um quitute, era um aconchego de afeto, dessa querida companheira de vida, mitigando aquele destempero… e me reposicionando.

Em tudo, há sempre algo bom ..

E quanta gente boa temos por perto. !!!

Nádia… uma bjo no seu coração!!! Uma homenagem!!


“A cafonice detesta arte”(Young para O Globo)

Bando de Cafonas

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

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O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.

O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

Texto de Fernanda Young, publicado em 26.08.2019 – em O Globo

https://oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sentencia-cafonice-detesta-arte-23903168

Histórias pelo caminho…

Lugares acordam memórias,  acordam histórias dentro de nós!

Nas décadas seguintes à instalação de Brasília como capital,  meu pai, então empresário do setor de “serralheria’,  atuou forte e pessoalmente em alguns projetos dessa grande empreitada brasileira.

Ainda criança pude acompanhar alguns de seus notáveis movimentos.  Ele levava seus colaboradores para essa cidade, em várias missões:  instalavam portões,  peças de ferro naqueles campos de obras – era o que aquela cidade havia se tornado. (diziam.. eles)

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O aeroporto de Brasília, onde estou agora,  era citado por ele, pelo porte e  grandiosidade destacados para aquele tempo.   Em uma de suas histórias relatava as brincadeiras saudáveis que fazia com os colaboradores.  Uma, em específico ele mencionava a frase: “Abre-te Sésamo”, quando paravam diante das portas automáticas do aeroporto,  que  como um passe de mágica,  abriam-se, não pelo que foi dito, mas pelo peso do corpo nos tapetes.   Mas daquele grupo,  só ele sabia..     E dizia “Abre-te Sésamo”,  e a porta se abria…kkkk    Trabalhavam bastante,  mas divertiam-se também.

A passagem rápida por esse lugar me acordou essas e outras memórias da convivência dele, meu pai, com o então conhecido Juscelino Kubitschek. As serestas que eles faziam, num cenário de construção da “capital”  de um país cheio de esperanças..   Além das recordações restaram as fitas cassetes com as vozes daqueles homens cantando em seu caminho, escrevendo suas histórias.  Cada um do seu jeito, do seu modo,  com sua contribuição.

Quem diria  que o palco dessas histórias tão cheias de otimismo e de trabalho  tornar-se-ia o teatro atual da instalada crise moral e ética, de tanta corrupção..     (sniff)

Até ..