perdas…

Tudo aconteceu há mais de trinta dias e durante todo esse tempo eu não tive coragem de lhe escrever embora tivesse vontade. Faltavam-me as palavras. Eu não sabia o que dizer nesta circunstância. Tinha certeza de que ele não estaria nada bem. Soube de sua enorme tristeza. Queria que ele soubesse que eu estaria ali à disposição, consternada por ele, pelo que houve, pela sua enorme perda. Os poucos momentos e oportunidades que tivemos juntos há alguns anos atrás foram suficientes para eu guardar um sentimento de afeto e carinho por ele.

Reuni as palavras e teclei enter.

” A morte nos ensina a transitoriedade de todas as coisas. ”
autor desconhecido

Eu me desmanchei ao receber como resposta uma linda e verdadeira declaração de amor. Parágrafos cheios de um sentimento nobre e genuíno. Frases de quem perdeu seu companheiro de forma abrupta e inusitada, de quem viu ir-se o amor da sua vida e o amigo fiel de décadas.

Ao ler aquela mensagem era como se eu estivesse sendo envolvida pela dor dele, pelo calor e sofrimento em cada pedaço de texto. Pensei: amigo, a saudade não pede licença, doi sim. Eu queria abraçá-lo e foi ele quem me abraçou.

Comovida senti meus olhos marejarem. Pensei no tão pouco que sabia da história deles, no que viveram, no companheirismo, no afeto e amor que tiveram juntos até a repentina separação. Acho que nessa breve troca de mensagens pude experimentar a empatia, cujo significado transcrevo resumidamente aqui: capacidade de sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo. … A capacidade de se colocar no lugar do outro. (www.significados.com.br)

Preservo a sua identidade ao compartilhar alguns dos seus fragmentos vibrantes. Retratam a dimensão das duras perdas na vida:

“sinto um vazio enorme no peito e muita dor no meu coração. Eu perdi de uma só vez, de forma trágica e rápida, o meu amor e o meu melhor amigo. …

enquanto eu continuo nesse sofrimento, o mundo ao meu redor segue, o trãnsito continua, o telefone toca, as pessoas continuam tomando chopp na esquina, …


e de repente tudo ficou incoerente diante da dor lancinante que estou experimentando. …


vou ter que dar um jeito de amenizar essa dor dilacerante que não para de latejar no meu coração e na minha alma e dar espaço ao sentimento da falta dele, acompanhado das lembranças, do carinho e do amor que eu tive o privilégio de receber dele nesses trinta anos de convivência tão harmoniosa. …

Snifff.


Em tempos de amores líquidos, fulgazes e superficiais este é pra mim um exemplo de convivência, de forte vinculação afetiva, de companheirismo, de dedicação mútua e de amor.

Que seja uma inspiração também para aqueles que querem “viver”, “cultivar” sentimentos profundos e nobres.

Anelo que fique em paz e certo de ter experimentado a prerrogativa de uma das grandes construções da vida humana. Oportunidade de poucos. Você tem o meu respeito.

Sem mais…

Pare! É revista! Já passou por este procedimento antes?

Pela terceira vez consecutiva estava eu ali, os pés posicionados no tapete marcado com o gabarito, pernas afastadas e braços estendidos, no meio de algumas dezenas de passantes, sendo “apalpada” eu diria, de corpo inteiro. Uma cena estranha, carregada talvez com certo constrangimento, pra não dizer cômica. Era uma revista feminina no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Ocorre normalmente após a passagem pelo portal detector de metais e a pergunta que se ouve, depois de ser escolhida é sempre a mesma, a senhora conhece o procedimento? Já fez isto antes? Sim, sim, sim. Sim, eu já conhecia o procedimento e pensava comigo: já passei por isso recentemente. Mas, eu de novo? Caracaaaaa!!!

Imagem relacionada

A escolha é aleatória e definida pelo olhar discriminatório dos agentes de plantão. Antes de continuar, quero fazer um parênteses: outro dia li um relato pessoal (link ao final desse post) sobre uma “insólita (incomum) revista” em um aeroporto dos Estados Unidos, cujo motivador era nada mais nada menos que os tamanhos dos seios (grandes) da passante.

Ops .. é isso mesmo?? Pior que sim.

Olhei para os meus… Não me pareciam ser do mesmo estilo dos da referida americana (rs). Quais então seriam as razões para ser uma “escolhida e repetente”?

Viajei na maionese: seria por conta da minha expressão facial? Talvez minha usual tranquilidade e calma no meio de tanta gente aparentemente “estressada” correndo como se fosse perder o último vôo para Paris. Uma certa displicência talvez de quem passa absorta pelo cenário, pessoas e lugares. Será que mesmo sendo uma pessoa do tipo “comum” poderia carregar algo de estranho ou esquisito? Aparento algo de “subersiva” como Clarice Lispector? rsss Ou seria o meu jeito próprio e despretensioso de me vestir? Na minha bagagem de mão não havia nada de mais. Nem meu pó branco (bicarbonato de sódio) eu carrego mais para evitar potenciais dúvidas.

O ato corriqueiro do aeroporto conta um pouco sobre julgar os outros. Julgamos os outros pela aparência, pela roupa ou sapatos, pelo tamanho dos seios, pelo corte ou cor dos cabelos, pelo dinheiro que tem, pela vida que leva, pelo relacionamento que sustenta, pelo carro que tem, pelo cargo e status, etc, etc, etc. Fazemos isso repetidamente baseado no que temos dentro de nos. Obviamente não carregamos o “papel”, ou a “responsabilidade” de fazer isso como os agentes da “revista no aeroporto”, mas a mecânica de medir os outros é automática em nós.

Diante desse fato relembro a frase do Bernardo Penna, que diz “A consciência do sujeito não contempla apenas valores positivos. É nela também que se encontram seus preconceitos, traumas, crenças etc. ” Daí, a necessidade de cuidar do que temos dentro da gente, evitando julgamentos maldosos, indevidos, indelicados e das consequências dos julgamentos que desdobram-se em ações.

Completando esse ocorrido, pra quem gosta de analisar situações por meio dos filmes posso citar o título “12 homens e uma sentença” que possui uma série de elementos e oportunidades de reflexão sobre julgamentos.

12 homens

“No decorrer do filme, podemos perceber “a arte imitando a vida” e, enquanto os jurados jogavam pedras no acusado, exteriorizando um “sentimento de alívio pessoal para seus próprios pecados”, Davis (jurado nº 8) ia de encontro ao “senso comum” e seguia na saga em absolver o réu. Infelizmente, as pessoas absolvem seus próprios pecados atirando pedras nos pecados alheios e cada vez mais as redes sociais “formam” juízes, verdugos e carrascos que exercem oficialmente a profissão, expondo suas certezas e prontos para divulgarem o rosto do próximo acusado / condenado.

Assim, o “fenômeno do senso comum”, pelo menos desde o final do século XIX já é estudado, através do trabalho de Gustave Le Bon (Psicologia das Multidões, no ano de 1895) e no começo do século XX, com o estudo sobre Psicologia das Massas, elaborado pelo visionário e “pai da psicanálise”, Sigmund Freud, mas, infelizmente, a sociedade como um todo, continua em acordo com o senso comum, continua agindo como os onze jurados que inicialmente, tinham a total certeza da culpa do acusado.” – por Leonardo Nolasco.

Como diz o ditado o tema dá pano pra manga!! E minha análise me leva a concluir que provavelmente aparento algo que foge ao senso comum. rsss Algo suspeito. kkk

Dentro de poucos dias, passarei pelo mesmo portal, pelo mesmo processo de embarque rumo às Minas Gerais… Já fico pensando… será que serei eu de novo? Vou levar umas perguntinhas preparadas a tiracolo… rs

Uma coisa é certa: essas passagens, por pequenas que sejam, no mínimo, me fazem pensar e ou rir da vida.

Como diz o provérbio portugues “rir é o melhor remédio”.

Até a próxima!!

“A REVISTA FÍSICA pode ocorrer mesmo após a passagem pelo detector de metais, como uma medida alternativa ou adicional de segurança. A revista deverá ser feita por policial ou agente de proteção da aviação civil de mesmo sexo do passageiro. Pode ser feita em sala reservada, se solicitado pelo passageiro, com a presença de testemunha. “

http://www.transportes.gov.br/novoguiadopassageiro/inspecao-de-seguranca-do-passageiro

Relato de revista nos Estados Unidos – http://acontecimentos-insolitos.blogspot.com/2010/11/aeroporto-de-orlando-eua-revistada-por.html

Assumo minha incompetência.

O que vejo neste exato momento são buracos e estragos grandes nas paredes. Desalento talvez seja uma boa palavra para a cena. Hoje é sábado e acordei decidida a dar cabo de alguns itens daquela usual “to do list” , vulgo “lista de pendências” ou lista de afazeres.

Ahhhh quanta valentia!!! Observo pensamentos de autosuficiência dançando na mente. “Eu posso lidar com isso, é simples e basta conseguir as ferramentas certas”. Arranjei emprestado o martelo do zelador e com os pregos e trena nas mãos me vi equipada. Cheia de “poder”! (pra não dizer empoderada, palavra cansativa dos últimos tempos).

Em instantes já estava em cima de um “banquinho” fazendo barulhos de sábado para os vizinhos. Medidas feitas, buracos e pregos entraram em ação. Vários deles foram sendo desfilados na parede. Ufa..!!!! Que legal!!! Ia ver meus quadros de mais de uma década, montados com os bibelôs e lembranças trazidos cuidadosamente de uma viagem ao continente africano, na parede da minha sala atual. Desde que me mudei há alguns meses os olhava diariamente encostados no canto, pedindo um lugar pra ficar. Hoje eu iria resolver isto. Ah se não!!!!

O que estava indecorosamente fora do planejamento, pelo menos para mim, é que os pregos não aguentariam o peso dos quadros. Estrondos à parte, viam-se cacos de vidros e pedaços de molduras esparramados pelo chão.

Uma atividade, que a princípio parecia simples (ao meu juízo) transformou-se num insucesso desalentador. E ainda colecionando prejuízos. Sabe aquele pensamento de “autosuficiência” ?? Um racional enganoso. “Coitada”!!!

Embora seja um acontecimento corriqueiro exemplifica bem as situações com as quais nos deparamos diversas vezes na vida e que resultam em fracassos. Ressalta-se então a necessidade de saber como lidar com elas, como aprender com o fato, e principalmente como se preparar melhor para vivê-las novamente.

Como trabalho especialmente com o desenvolvimento de pessoas essas análises são frequentes pra mim. Ao avaliar as “reais” habilidades e competências é preciso oportunamente pedir ajuda à pessoas e profissionais que estejam mais capacitados em determinadas áreas. Um processo que requer autoconhecimento, paciência e humildade para a conquista de melhores resultados.

Se pararmos para pensar é muito mais usual sermos condescendentes conosco, não enxergando nossas reais condições. Fácil demais é reconhecer e apontar as limitações dos outros. Olhar para o próprio umbigo e identificar as próprias imperfeições, insuficiências é bem mais desafiador.

Enfim, nosso dia a dia é cheio de boas lições. Agora é procurar um lugar que me ajude a consertar o estrago que fiz!!

Bom final de semana!!