Por que Holonomic Thinking?

Transition Consciousness

Um dos maiores pensadores sistêmicos mundiais, W. Edwards Deming destacou que o management sofre de sete doenças fatais, dentre as quais uma das mais comuns se refere à necessidade dos executivos utilizarem dados numéricos e gráficos para gerir seus negócios, dando pouca ou nenhuma importância para o que não pode ser medido ou traduzido em números. Em meados da década de 1980, quando primeiro falou sobre isso, também preveniu sobre o uso crescente dos computadores como sendo a fonte indiscutível de informações e dados, o repositório confiável para uso da gestão, e a pouca atenção para as percepções sobre os reais problemas de produção.

Photo: Pixabay

Essa falta de atenção para com os aspectos intangíveis do negócio que não podem ser mensurados de maneira quantitativa demonstra uma carência de percepção mais completa da realidade. Isso se deve ao fato de utilizarmos basicamente o processo lógico-analítico para entender e ver o…

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“Negócios do bem, além de fazerem o bem, trazem bens”

Se existe algo que sempre esteve presente nas minhas atuações corporativas, especialmente na condução de equipes, foi o valor das pessoas. Por vezes, parecia um idealismo (visão romântica dos negócios?), outras, um caminho meio que “solitário” diante dos objetivos financeiros e de curto prazo perseguidos pelas empresas. Mas estava alí.. sempre. O “humano”. A gente. E no fim… é por isso sim.

Quando li esse artigo, da Luah Galvão, fiquei feliz de presenciar a evolução de negócios, cujos propósitos, são mais elevados, e focalizam o “bem”. Isso é raro. Raro mesmo. Gostei tanto desse artigo que quero compartilhar aqui com você, anelando que ele lhe inspire tanto quanto ocorreu comigo.

Segue abaixo. Desfrute

Por Danilo e Luah, Publicado em 28 maio 2019, 11h21 n ( site da Exame ) – link no final desse post.

 (Jo Szczepanska via Unsplash/Site EXAME)

““O mundo mudou drasticamente e vai continuar a mudar em progressão geométrica” – essa frase e suas inúmeras derivações talvez estejam entre as mais faladas nos últimos tempos. 

Estamos vivendo um momento de muita complexidade, nosso mundo atual, altamente interligado e volátil, vem tornando o futuro totalmente imprevisível.Mas, olhando para o cenário atual e fatos que emergem, podemos delinear algumas possíveis tendências, e é sobre o tema que inspira o título da matéria, que gostaria de exercitar uma reflexãoAfinal, negócios do bem também podem trazer bens? Essa  pode ser considerada uma tendência para os novos tempos?PUBLICIDADE

É fato que 50% das empresas da lista da Fortune 500 de 2006 já não existem mais e que boa parte dos empregos conhecidos vem sumindo do mapaÉ fato que o consumidor mudou sua maneira de se relacionar com produtos e serviços, ficando mais exigente, cobrando das empresas posturas mais coerentes com seus discursos, processos mais sustentáveis, a melhoria na qualidade daquilo que é negociado, e principalmente, exigindo mais transparência nas relações. É fato que para se manter hoje no mercado, é necessário um realinhamento com essas novas premissas.É necessário rever o propósito de existência dos nossos negócios e buscar um posicionamento cada vez mais ético e orientado para ajudar a fazer deste, um mundo melhor. Diante desse cenário, o assunto dessa matéria ganha um contorno bem atual.

O mais interessante, é que se eu resolvesse escrevê-la nos primórdios dos anos 90, o tema pareceria um devaneio jovem ou um roteiro “abraça árvore” com tons remanescentes do Woodstock, mas hoje, em meados de 2019, ele se mostra bastante real. É só a gente acompanhar a curva de crescimento estrondoso dos Unicórnios (startup’s que possuem avaliação de preço de mercado acima de 1 bilhão de dólares), se olharmos mais de perto, a grande maioria está orientada para construção de um mundo mais ágil, conectado, sustentável, colaborativo, desburocratizado, compartilhado, independente, etc, construindo grandes negócios para o bem comum. E os bilhões de valuation provam seu retorno. 

Os Unicórnios estão amedrontando o mercado, abalando as estruturas tradicionais, fazendo os grandes conglomerados repensarem suas estratégias, seu core e sua missão no mundo. Estão fazendo com que todos repensemos nossa maneira de fazer negócios, ganhar dinheiro, empregar gente, nos relacionar. Estão inspirando.

E não são apenas as startups que entram nessa onda, muitas empresas já estabelecidas estão ganhando notoriedade como entidades inovadoras, visionárias e alinhadas a uma intenção de bem maior. Exemplos não faltam, é só dar uma olhada nas chamadas “Empresas B” (B Corporation); companhias certificadas como sendo não as melhores do mundo, mas aquelas que são “boas para o planeta”. Essas empresas acreditam que o lucro caminha junto com benefícios sociais.  

Conheci essa certificação em um evento em São Paulo por volta de 2014, quando na época só haviam 800 certificações no mundo. Hoje são 2788 empresas e 150 indústrias distribuídas em 64 países, e esse número vem crescendo rapidamente. Parece que os negócios orientados para o bem comum chegam para ficar e se delinear como tendência. O mundo agradece!

Para me ajudar a falar sobre esse assunto conversei com Gustavo Gaion – uma pessoa incrível que vem estudando o tema com afinco. Gaion é publicitário da área de mídia, empreendedor digital e um dos sócios do Self Mosaico. Ocupou importantes posições de liderança por onde passou, atuando como Vice Presidente e Diretor Geral de Mídia em grandes agências como Young & Rubicam, Ogilvy, Almap, além de marcar presença também na Leo Burnett e Grey. 

Gustavo recentemente passou por uma uma transição de carreira interessante – do corporativo para o empreendedorismo. E foi em meio a essa mudança de escopo profissional que potencializou suas pesquisas sobre os “Negócios do Bem”. E vamos para o nosso bate-papo…

Já de início procurei entender se estudar o tema e pensar em empreender negócios bons para o mundo, o ajudou em sua transição do corporativo para o empreendedorismo. 

“Apesar de ter passado toda a minha carreira dentro de empresas, empreender sempre foi uma vontade. O que acontece quando se está atuando no corporativo é que as demandas e necessidades do dia a dia criam um cenário onde falta tempo para se dedicar ao plano de empreendedorismo, coragem de investir abrindo mão da estabilidade financeira, e às vezes as duas coisas. Ter um propósito aliado ao plano de empreender sem dúvida tem facilitado esse processo de transição profissional. Fazer algo que se conecta com sua ambição de um mundo melhor torna os desafios de empreender mais fáceis.” – respondeu ele

Sigo perguntando o que o levou a pesquisar esse tema e há quanto tempo estava se dedicando a essa pesquisa.

“Comecei a pesquisar sobre o tema a pouco mais de um ano e meio, influenciado pelo momento em que me encontrava profissionalmente. Sempre acreditei que cuidar de pessoas e de toda cadeia que envolve o processo produtivo de uma empresa é o que traz os melhores resultados. Essa crença parece óbvia, mas não é o que se pratica. A busca incessante por um resultado financeiro crescente e recorrente faz com que as organizações deixem de cuidar de seus colaboradores e de todo o ecossistema de stakeholders, o que por consequência coloca o negócio em risco a médio e longo prazo. Decidi investir tempo estudando referências de empresas que acreditam no mesmo que eu, e acabei encontrando uma série de exemplos e cases super interessantes.”

Puxando um gancho da fala do Gaion, hoje realmente são muitas as empresas preocupadas em deixar um rastro mais positivo no planeta. Em todos os segmentos encontramos exemplos que transbordam uma mudança positiva nas mais variadas áreas. Os exemplos são inúmeros. Quem nunca ouviu as lendárias histórias sobre Herb Kelleher – Presidente da Southwest Airlines, falecido do início desse ano, um líder inspirador que deixa um rastro de inúmeros aprendizados sobre uma liderança totalmente orientada para gestão de pessoas. Ficam aqui duas frases clássicas de Kelleher:

“Seus colaboradores vêm em primeiro lugar. Se você tratá-los bem, sabe o que vai acontecer? Seus clientes voltam, e isso vai fazer os acionistas felizes. Comece com os colaboradores e o resto seguirá.”

“Eu penso que a liderança é valorizar o tempo que você gasta com a sua equipe mais do que qualquer outra coisa que venha a fazer.”

A Southwest diga-se de passagem, é uma cia aérea bilionária, que em 45 anos de existência, sempre teve lucro. Ela é apenas uma das empresas que foram fundadas com uma orientação para a qualidade da relação com as pessoas – de colaboradores, passando por clientes e acionistas. 

E já que entramos no assunto liderança, segui o papo perguntando se ele acreditava que por trás de todo negócio que tem como propósito o “bem comum”, deveria existir também uma boa pessoa, dotada de valores e princípios. 

“Sim, sem dúvida. Eu costumo dizer que o “exemplo” não é a melhor forma de liderar e sim a única. Essa visão tem que vir de um líder que inspire todos, conduzindo seus negócios com congruência entre o que pensa, diz e faz. Eu sempre procurei cultivar um ambiente de harmonia e valorização das pessoas por onde passei. O clima era visível, e a motivação da minha equipe acabava, muitas vezes, descolando do clima e energia da empresa como um todo. Durante um tempo eu tentei levar isso adiante dentro de toda a organização, mas sempre acabava entrando em confronto com a visão que a maior parte das empresas tem hoje, que é o foco na construção de value proposition e maximização dos resultados financeiros de curto prazo. Com isso decidi investir tempo em investigar o que estava acontecendo com aquelas empresas que tinham decidido cuidar melhor das pessoas, não só pela atratividade e prêmios de RH, como em resultados concretos de negócio.” E encerra dizendo: “Se você quer influenciar e inspirar, seja um exemplo de conduta, isso exige responsabilidade, e é claro, atitude.”

Aproveitei para perguntar qual era para ele a diferença – em termos de rentabilidade, de um negócio cujos resultados estão orientados para os investidores e acionistas, em relação àqueles cujo resultado está orientado para as pessoas ou para o bem comum.

“Existe uma pesquisa que acabou se transformando em livro chamado ‘Firms of endearment – How World-Class Companies Profit from Passion and Purpose’ (Empresas que Cuidam – Como grandes empresas lucram com paixão e propósito). Essa pesquisa certifica empresas que se preocupam em cuidar das pessoas e do mundo. Existe uma quantidade relevante de negócios que estão dentro dessa análise e que são chamados de FOEs – companhias que remuneram bem seus colaboradores, não pressionam nem tendem a espremer seus fornecedores, entregam bons produtos, serviços e experiências a preços honestos e se preocupam com o impacto que podem causar no planeta. 

Os resultados demonstram que num período acumulado de 10 anos, um grupo de 18 empresas (FOEs) de capital aberto, trouxe oito vezes mais resultado para seus acionistas que aquelas outras empresas que compõem as S&P 500. 

Confesso que fiquei surpreso e muito feliz quando fiz essa descoberta. O mais interessante é notar que empresas que investem em tratar bem seus funcionários, são transparentes com seus clientes, não pressionam seus fornecedores, oferecem um bom produto/serviço com um preço justo, e cuidam do ambiente em que estão inseridas, são as que mais crescem a médio e longo prazo, ou seja, tem um modelo de negócio muito mais sustentável.” – concluiu ele.

E para encerrar, pergunto se o Gaion também via os “negócios do bem” não só como uma realidade atual, mas como uma tendência duradoura. 

“Não só acho como tenho certeza que é uma tendência que veio para ficar. É gratificante perceber que já existe uma série de negócios e organizações que estão transformando o mundo através de novos modelos de liderança orientados ao bem comum, construindo riquezas e com isso, tornando o mundo um lugar melhor de se viver. Para mim, esse modelo construtivo é o único que transforma, e o melhor, é que já colecionamos vários exemplos assim para nos inspirar.”

Pessoalmente, acredito estarmos diante de um momento muito fértil e interessante, com grandes chances de alterar o status do que se pode entender como negócio. A palavra vem do latim “NEGOTIUM” – que significa “negar o ócio”, ou seja, trabalhar, se empenhar em algo, lucrar, para, depois, dedicar-se ao que é bom e positivo: viver a vida. Sinto que esses novos contornos dos Negócios, agora voltados para o bem comum, podem transmutar nossa relação com o próprio trabalho. Ter a certeza de que as horas diárias destinadas ao profissional resultam em um bem comum e ajudam a construir um futuro mais luminoso, talvez nos traga um bem maior do que qualquer resultado material: nossa própria felicidade, satisfação e sentimento de dever cumprido.”

Por Luah Galvão

Adorei Luah… bjo pra vc.!!!

Segue o link da fonte >: https://exame.abril.com.br/blog/o-que-te-motiva/negocios-do-bem-alem-de-fazerem-o-bem-trazem-bens/

Não é o crítico que importa, nem aquele que mostra como o homem forte tropeça, ou onde o realizador das proezas poderia ter feito melhor.
Todo o crédito pertence ao homem que está de fato na arena; cuja face está arruinada pela poeira e pelo suor e pelo sangue;
aquele que luta com valentia; aquele que erra e tenta de novo e de novo; aquele que conhece o grande entusiasmo, a grande devoção e se consome em uma causa justa; aquele que ao menos conhece, ao fim, o triunfo de sua realização, e aquele que na pior das hipóteses, se falhar, ao menos
falhará agindo excepcionalmente, de modo que seu lugar não seja nunca junto àquelas almas frias e tímidas que não conhecem nem vitória nem derrota.

Theodore Roosevelt

“Pobres dos nossos ricos” – Mia Couto

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. Por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam. O fausto das residências não os torna imunes. Pobres dos nossos riquinhos!

São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam de ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados-às-pressas não se sentem bem na sua própria pele. Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos. Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal-explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores. Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado “a luta pelo progresso”? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país. São nacionais mas só na aparência. Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que esses outros lhes agitem com suficientes atractivos acabarão vendendo o pouco que nos resta.

Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros. Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode ir ás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem criancas que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal. Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem. Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida. Uma parte da nossa elite está pronta para realizar esse suicídio histórico. Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento.

(Moçambique, Jornal “Savana”. Dez. 2002)

– Mia Couto, texto “Pobres dos Nossos Ricos”. no livro ‘Pensatempos: textos de opinião’. Lisboa: Editorial Caminho, 2015.

Saiba mais sobre Mia Couto:
Mia Couto – o afinador de silêncios (biografia)
Mia Couto – fortuna crítica
Mia Couto – neste site

Por Revista Prosa Verso e Arte

Pão nosso. De cada dia.

Quase de madrugada ainda e elas cobriam o salão de conversas e risos… Temperamentos alegres. Fisionomias dispostas. E as mãos? Literalmente, na massa.

Presenciar essa cena logo cedo, antes de ir para o trabalho, me inspirou. Imaginar que aquelas mulheres pularam da cama, antes da maioria de nós. Estavam alí com essa “vibe”, fazendo algo que adoro. O pão de cada dia.

Sabe lá o que viveram e vivem para estarem alí. Todos os dias. Cada uma com suas histórias, problemas, sentimentos, relações. Movimento atrás do outro, na massa, no pão, no biscoito…. a colaboração, a cooperação acontece. E a vida se vai tecendo.

Bom começar o dia com o “som” de vocês, meninas!!

O peso de cada um (Ana Holanda)

“Acordei cansada, muito cansada. Corpo dolorido, nariz entupido. Mais do que gripe, eu tinha a sensação de carregar o mundo nas costas. Minhas decisões, meus excessos, tudo parecia me pesar. Me joguei no sofá, triste comigo mesma. Desanimada. Peso. E, enquanto eu me sentia miserável e perdida nos meus dramas, maldizendo a vida, Clara, minha filha de 10 anos entra na sala. De pijama, cabelos desarrumados, me olha, sorri, senta ao meu lado, me abraça e pergunta: “Você está bem, mãe? Quer que eu cuide de você? Antes mesmo que eu lhe responda, Lucas, meu menino, irmão gêmeo da clara, também se aconchega ao meu lado. Me abraça e minha cabeça fica próxima ao seu peito. Ouço o coração dele. Ele então me diz, bem próximo ao ouvido: “te amo, mãe”. Ele se distancia, segue com sua rotina e a Clara também. Olho para mim, olho tudo o que me cerca. Existe algo ao meu redor que vai tão além de mim mesma… O peso se desfaz e dá lugar ao amor, a uma sensação gostosa de estar presente, ao dia com céu azul, ao vento fresco que entra sorrateiro pela janela. Estava tudo ali antes das crianças entrarem na sala, enquanto eu remoía minhas mazelas. Eu é que não percebia. A leveza, afinal, muitas vezes é assim, uma escolha. E ela é diária. Eu diria mais: ela se faz a cada instante. ”

Por Ana Holanda, editora chefe da Revista Vida Simples, abrindo a edição de número 205 – “cultive a leveza”.