IA – o futuro passa por ai…

A série “Black Mirror” apresenta episódios imperdíveis, pra não dizer pertubadores. Estimula reflexões importantes sobre vários dilemas alusivos ao uso das tecnologias substituindo ou reposicionando as habilidades humanas, e seus riscos e perigos. São verdadeiros exercícios mentais de ordem prospectiva que apresentam elementos formidáveis para conceber futuros. Pensar o futuro, literalmente.

Vr, Virtual, Virtual Reality, Technology
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Os desafios que o desenvolvimento tecnológico têm despertado são adimensionais. Há pouco tempo escrevi uma postagem – O que você anda fazendo nas redes – com a intenção de iluminar alguns riscos no uso indiscriminado das redes. Infelizmente a maioria de nós não se imagina como vítima de ataques e problemas digitais. É preemente ampliar a atenção para esse tema.

Um dos autores mais lidos da atualidade, o israelense Yuval Noah Harari – autor de best-sellers internacionais – esteve no Brasil recentemente apresentando suas ideias sobre temas relevantes, e este é um deles. Suas falas e textos reforçam sobremaneira aspectos relacionados à mudanças na vida dos indivíduos e a necessidade de estar melhor preparados para tal. Essa frase dele, do último livro nos convida a pensar:

Em 2018 a pessoa comum sente-se cada vez mais irrelevante. Um monte de palavras misteriosas são despejadas freneticamente em TED Talks, think tanks governamentais e conferências de alta tecnologia — globalização, blockchain, engenharia genética, inteligência artificial, aprendizado de máquina —, e as pessoas comuns bem podem suspeitar que nenhuma dessas palavras tem a ver com elas. A narrativa liberal era sobre pessoas comuns. Como ela pode continuar a ser relevante num mundo de ciborgues e algoritmos em rede? ”

Yuval Noah

A inteligência artificial já é uma realidade. Promove evoluções brilhantes e necessárias à sociedade. Cito, por exemplo, um dos lados positivos: uma pesquisa realizada pela consultoria americana DuckerFrontier (a pedido da Microsoft) e publicada pela “The Shift”, que menciona que o uso da IA (Inteligência artificial) em vários setores da economia pode promover crescimento (CAGR) do PIB – Produto interno bruto, para 7,1% ao ano, até 2030. Entretanto, é inegável a diversidade de propósitos e finalidades com a sua utilização. É sobre o bem e o mal.

A dominação de indivíduos por meio da tecnologia, em vários aspectos da vida, seja na influência velada para o consumo, seja na interferência para tomada de decisões de carreira, e outras, acende sinais de alerta. Fazer frente a essas questões pressupõe ampliar conhecimentos, mergulhar profundamente no entendimento de quem somos, sobre nossas reais necessidades e sobre o contexto em meio aos “aparatos” todos. (algoritmos, robôs, neuromarketing, etc).

A série que comentei no início dessa postagem pode ser um caminho divertido e prático para essa ampliação de consciência sobre o assunto e para elaboração mental de novas visões a respeito. Proponho esse dever de casa… rs. Se topar, compartilhe comigo suas elaborações, reflexões a respeito. Vou gostar.

Até sempre,

Da

Thinker, At A Loss, Consider, Play
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“Embora os desafios não tenham precedentes, e as discordâncias sejam intensas, o gênero humano pode se mostrar à altura do momento se mantivermos nossos temores sob controle e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões. “

Yuval Noah

Sozinho, não há.

Em determinado momento pensei que ela fosse desabar, desmanchar-se em prantos. Embora estivesse na “tpm” e mencionasse a sensibilidade aflorada, segurou o desconforto de forma valente. Sim, me pareceu engolir em seco algumas vezes, sinal de que todo aquele mergulho interno promovia repercussões internas, as mais diversas.

E, afinal, esse era o objetivo. Um grupo de amigas e amigas das amigas, realizando uma mentoria coletiva. Esta é uma prática valiosa ao desenvolvimento humano e de negócios., mas há que se registrar a potencial turbulência, principalmente àquelas pessoas que estão verdadeirametne abertas e se deixam perscrutar.

Ahhhh!!! Processo belíssimo! De ver brotar insights, dificuldades, oportunidades e o melhor, perspectivas!!

Estivemos juntas, ao longo de ininterruptas três horas e meia. Um tempo que parecia passar difernte daquele do relógio. Penso que pelo prazer da colaboração e das interações de toda ordem. Um verdadeiro pout-pourri de elementos entrelaçados: visões, sentimentos, percepções, e pensamentos críticos. Tudo junto e misturado com muito afeto e respeito humano.

O valor de experiências coletivas nesse nível, com conexões genuínas e verdadeiras é inexprimível. A gente fica muito melhor a partir do olhar do outro. Sozinho, não há “jogo”.

Stadium, Football, Viewers
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“Há tantas coisas que não sabemos que não sabemos, que ignoramos a respeito de nós mesmos, coisas que fazemos automaticamente, como se seguíssemos determinado programa executado em nossas mentes. Coisas em nós mesmos que requerem olhar para o outro para nos vermos de verdade, e o que a gente acaba descobrindo na imagem refletida pode ser muito bom ou muito difícil, mas acho que o resultado compensa.”

Cavalcanti, Sérgio. Sorte na vida . Editora Morena. Edição do Kindle.

Sobre o que você mudou de opinião recentemente? (Filipe D.Nunes)

Nov 7 · 7 min read

Ouvi essa pergunta no Tim Ferriss Show e fiquei intrigado. Peguei um papel e comecei a rascunhar algumas respostas. Não é uma pergunta fácil de se responder sem tirar alguns minutos para pensar. Mesmo quando você pensa em algo, não é imediatamente claro o que te fez mudar de opinião e nem quando a mudança aconteceu.

Mr. Ferriss é criterioso com suas perguntas, sempre escolhendo uma construção que ajude o entrevistado a pensar e responder. Nesse caso, ele assumiu que mudar de opinião é algo desejável, não perguntando se o entrevistado tinha, de fato, mudado de opinião sobre algo.

Minha intuição diz que ele está certo.


Por que mudar de opinião é algo desejável?

Embora minha primeira reação tenha sido que sim, ter a capacidade de mudar de opinião é desejável, as razões só ficaram claras quando coloquei as ideias no papel. Cheguei à seguinte conclusão:

A capacidade de mudar de opinião influencia a capacidade de se viver plenamente.

Ãn? Como assim?

Minha lógica é a seguinte…

Meu objetivo é viver a vida até a última gota. Extrair o máximo possível de vida do tempo que tenho no planeta azul. Na vida existem coisas que controlo e coisas que não controlo. A abordagem deveria ser me adaptar ao que não controlo e gerenciar da melhor forma possível o que está ao meu alcance. Meu sucesso em fazer isso aumenta proporcionalmente à qualidade de minhas decisões. Decisões influenciam valores, hábitos, identidade, uso do tempo.

Para tomar melhores decisões preciso enxergar o mundo como ele é e não como gostaria que ele fosse — idealmente não confundindo o mapa com o território. Se o mundo muda, preciso continuar aprendendo, me adaptando, o que pressupõe um intake de novas informações e conceitos, e uma adaptação de métodos, frameworks e mapas mentais. À medida que tenho novos inputs, atualizo minha visão de mundo e tomo a melhor decisão possível naquele momento. Se isso significa mudar de opinião sobre algo, que seja! Se levo em consideração o que tenho ao meu dispor, e tomo a melhor decisão possível, opiniões passadas deveriam ser irrelevantes. Não?

“Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. O que você faz, sir?”
– Frequentemente atribuída a John Maynard Keynes

Se essa lógica é válida, mudar de opinião deveria ser algo comum, mas não vemos isso com frequência — incluindo em nós mesmos.

Na verdade é mais complicado que isso.


Por que mudar de opinião pode ser difícil?

A natureza humana e o mundo atual muitas vezes jogam contra nós.

1. Não pensamos para decidir, pensamos para justificar nossa decisão

Apesar de pensarmos que tomamos decisões racionalmente, com base em fatos, análises e ponderações, pesquisas mostram que, quando abordamos assuntos relacionados à moralidade, tomamos decisões emocionalmente e instintivamente, usando a parte automática do cérebro. Somente, em seguida, utilizamos a parte racional, não para decidir mas para justificar a decisão já tomada.

Jonathan Haidt aborda esse mecanismo contra-intuitivo em “The Righteous Mind”“Pensamos moralmente não para reconstruir as razões pelas quais nós mesmos chegamos a um juízo; pensamos para achar as melhores razões possíveis para que outros se juntem a nós em nosso juízo.”

Nossa intuição vem primeiro, depois nosso racional. O rabo abana o cachorro. Ou seja, se queremos mudar a opinião de alguém, inclusive a nossa, precisamos chegar ao emocional de alguma forma e não somente usar o racional. Isso explica em parte a dificuldade de colocar aquela lógica ali de cima em prática.

2. Vivemos em bolhas de informação que confirmam nossas opiniões

Somos atraídos por pessoas que se parecem conosco. Inconscientemente. São mais relacionáveis, o contato parece ter menos risco de rejeição. É mais provável que essas pessoas tenham opiniões parecidas às nossas. Quando nossas opiniões são confirmadas, ficamos mais seguros e confiantes que essa é a melhor opção. Quanto mais seguros estamos, menos buscamos opiniões divergentes. De repente estamos vivendo numa bolha com viés confirmatório.

Essas bolhas de informação podem se formar naturalmente ou serem potencializadas pela tecnologia. Se os algorítimos do Google e Facebook querem otimizar nossas buscas levando em consideração buscas anteriores, localização, comportamento de clicks na web, etc., nossos resultados sob medida não necessariamente trazem um mix diverso e extrapolável de páginas com posições diferentes sobre determinado tópico.

[Existem estudos contraditórios sobre os efeitos de mídias sociais e sites de busca na potencialização dessas bolhas e consequente polarização. Mas mesmo se acessamos sites diretamente, por exemplo, de política. Se sou de esquerda, a tendência é que navegue em sites de direita tão frequentemente quanto nos de esquerda, pra calibrar minhas impressões? Acho que não.]

Opiniões confirmadas são opiniões enraizadas. Opiniões enraizadas, por definição, são menos passíveis de mudança/atualização.

3. Opiniões passam a fazer parte da identidade

Algumas opiniões, reforçadas ao longo do tempo, passam a fazer parte de nossa identidade. Isso é particularmente verdade se essas opiniões forem compartilhadas publicamente.

Se você fala para todos seus amigos, conhecidos e colegas que você é vegano, argumenta sobre a necessidade de se mudar nossa relação com os animais, fazendo vídeos sobre o tópico, é menos provável que você leia artigos científicos que abordem os potenciais downsides nutricionais do veganismo, mesmo que eles sejam cientificamente confiáveis. É mais provável que você não queira ouvir os argumentos de alguém que seja 100% carnívoro. Não porque você é uma má pessoa, mas porque esse rótulo está tão enraizado em quem você é, que você inconscientemente rejeita quem não concorde com você. (E quando eu falo você, quero dizer nós)

Defendemos quem somos com unhas e dentes. Queremos ser consistentes com a forma que vivemos até então. Mudar é desconfortável e o instinto de defender nossa identidade turva nossa capacidade de buscar ativamente e avaliar racionalmente novos pontos de vista.

Opiniões enraizadas podem se tornar parte de nossa identidade e mudar nossa identidade é desconfortável.

4. Excesso de confiança é recompensado

Políticos que mudam de opinião sobre um determinado assunto são vistos como “vira-casaca” ou são acusados de negociar influência. Gerentes de empresas que mudam de opinião sobre uma estratégia de mercado perdem credibilidade com o time, especialmente quando o trabalho feito até ali vai ter que ser refeito. “Ele não sabe o que quer!”

O mundo é probabilístico. Existem graus de certeza e incerteza sobre qualquer posição que tenhamos, mas raramente vemos alguém falando: “Tenho 60% de confiança que nossa estratégia vai dar certo. Não é o ideal, mas é o melhor que temos nesse momento.” Não soa convincente, não empolga o time, não sai bem no vídeo. Mudar de opinião e dizer que estava errado menos ainda.

O mundo é probabilístico mas percepção é realidade. Na maioria das vezes parece ser melhor projetar confiança omitindo riscos do que comunicar a incerteza sendo totalmente sincero.

O candidato bem articulado e pouco lógico é mais bem recebido do que o candidato menos articulado e super lógico. O líder confiante fez o dever de casa, sabe onde quer chegar e inspira seus seguidores. Confiança recompensada. E o que é recompensado é repetido.

Triste, mas real. [Minha percepção de mundo está muito pessimista aqui?]

5. Dá trabalho

Precisamos de capacidade mental para “escapar do tigre e caçar o jantar”, então automatizamos o que for possível. Nossos hábitos são formados para isso e se construímos uma opinião sobre algo, é mais fácil manter essa opinião do que reavaliá-la a todo momento.

Normalmente temos opiniões fortes sobre assuntos polêmicos. Assuntos polêmicos normalmente são complexos e discutir assuntos complexos requer tempo, disposição, e lucidez.

  • Tempo para definirmos os elementos de construção sobre os quais nossa opinião se apoia. Muitas vezes partimos de conceitos diferentes. Digamos que sou a favor da legalização das drogas. Não faz sentido discutir os prós e contras sem antes definir o que significa legalizar e de quais drogas estamos falando. Palavras podem significar coisas diferentes para pessoas diferentes e sem estabelecer um terreno comum a discussão se transforma numa competição de quem fala mais alto. Uma entrevista de 5 minutos na TV não é suficiente para argumentar sobre um assunto complexo. Um dos motivos que formas de mídia mais longas (e.g. podcasts) estão cada vez mais relevantes. Mais complexidade = maior o tempo necessário para a discussão.
  • Disposição para engajar e ouvir outros pontos de vista. Digo disposição porque é preciso investir energia para controlar nosso instinto. Nosso instinto é ouvir para contra-atacar. Para evitar que isso aconteça, precisamos engajar ativamente com o intuito de entender a lógica do argumento e a validade de novas informações. É uma prática constante. Lembrar que o objetivo é sair conjuntamente com a melhor opinião possível e não “vencer a discussão” pode ajudar. Mais forte nossa opinião = mais difícil de controlar nosso instinto.
  • Lucidez para entender que assuntos complexos são complexos por um motivo (por vários, na realidade!) e que provavelmente não existe uma opção claramente melhor – uma bala de prata que funcione para todos, em todos os lugares, sempre. O objetivo deveria ser promover o diálogo, testar nossas hipóteses e refinar nossas posições.

“Eu nunca me permito ter uma opinião sobre qualquer coisa antes de saber os argumentos de minha contraparte melhor que do que ela.”
— Charlie Munger

Não precisamos chegar ao nível de Munger, mas podemos caminhar direcionalmente a ele. Dá trabalho! 😁


Dito tudo isso, o objetivo de se viver a vida ao máximo continua. Chego a conclusão de que tomar melhores decisões passa:
1) Pela busca ativa de opiniões divergentes e outras visões de mundo
2) Por reconhecer nossos instintos e aprender a conviver com eles

Calibrar nossas opiniões e refinar nossa visão de mundo toma tempo e é desconfortável no curto prazo, mas dada sua alavancagem e seu efeito acumulativo, no longo prazo, a conta parece fechar com folga.

Quando ouvi a pergunta no podcast não imaginei que viria parar aqui. Acho que acabei refinando minha opinião sobre ter opiniões. (ba-dum ching!)

E você? Sobre o que você mudou de opinião recentemente?


Resumo

Por que mudar de opinião é algo desejável?

A capacidade de mudar de opinião influencia a capacidade de se viver plenamente.

Por que mudar de opinião pode ser difícil?

A natureza humana e o mundo atual muitas vezes jogam contra nós.

1. Não pensamos para decidir, pensamos para justificar nossa decisão
2.
 Vivemos em bolhas de informação que confirmam nossas opiniões
3. Opiniões passam a fazer parte da identidade
4. Excesso de confiança é recompensado
5. Dá trabalho

Ainda assim vale a pena!

Filipe Dutra Nunes

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Filipe Dutra Nunes

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Lindaaaaa!

Intencionalmente entrei na organização contando os passos e olhando a fisionomia das pessoas: seus olhares e suas expressões. Fui desenhando mentalmente uma fotografia viva e coletiva. Este “retrato”, normalmente, me diz muito dado que sou uma observadora interessada na “humanidade”. rs

Naquele curto trajeto alguns poucos responderam aos meus estímulos e cumprimentos básicos, outros sequer olharam nos meus olhos. Tenho aprendido que um conjunto de seres contam muito sobre a cultura do lugar e do grupo do qual pertencem. Expressões, gestos, comportamentos e ações representam bem a comunidade, a forma de serem “juntos”.

Não localizei o fotógrafo para os devidos créditos (from pinterest)

Uma negra linda de cabelos coloridos respondeu-me com um sorriso genuíno quando fiz menção de sua beleza extravagante. Tive vontade de fotografá-la. (adoro fotografia), não somente pela beleza física, mas pelo que transmitia. Forte e leve ao mesmo tempo. Segura de si. Tem gente que é assim, naturalmente radiante. Comove. Manifesta-se no mundo. Tem aqueles que simplesmente sobrevivem a ele. Mortos indigentes vivos. Perambulando por ai.

É uma arte a forma como cada um escolhe e “consegue” viver. Saborear, desfrutar, ou morrer um pouco a cada dia.

Bjo,

Darlene