Sem(100) ou CONs-ciência”?

Você é consciente a maior parte do tempo?

Você toma decisões conscientemente, levando em conta o que é mais importante ou melhor?

Como é pra você estar ou não consciente?

Essas e outras questões me instigaram nesse rápido estudo. Aprendi que ao longo das últimas décadas muitas evoluções ocorreram nos conhecimentos sobre as funções psicológicas básicas, principalmente em função dos avanços tecnológicos de alta monta e dos novos estudos das neurociências. Novas perspectivas nasceram integrando diversas áreas das ciências humanas e biológicas visando compreender o funcionamento do sistema nervoso, tais como a neuroanatomia, a neurofisiologia e a neurologia (MATTOS; SILVA; GAMA, 2019).

Os aparatos tecnológicos viabilizaram análises valiosas como as neuroimagens propiciando descobertas incríveis sobre o cérebro humano.  Assim, a mente, a consciência, as emoções e os comportamentos passaram a ser ainda mais considerados nas investigações científicas possíveis tendo como base a identificação e os estudos acerca das atividades neuronais (MATTOS; SILVA; GAMA; 2019).

Mas aqui, como mencionei nas perguntas iniciais, meu foco será a consciência e o que dizem as bibliografias existentes. Não obstante todos os avanços mencionados, trata-se ainda de um importante alvo de pesquisas, um tema a ser explorado e melhor compreendido.

Afinal, a consciência existe ou não?

Se existe, é possível conceituá-la ou identificá-la? 

Trata-se de uma das grandes questões da humanidade desde os registros históricos filosóficos de 1641 até os dias atuais (HERMETO; MARTINS; 2016).

Conhecer o porquê de determinadas experiências serem conscientes ou não, identificar os processos biológicos neurais que correspondem ao estado de consciência, entre outros; são desafios atuais para as pesquisas científicas em curso.  

A natureza da consciência vem sendo discutida desde os registros iniciais dos estudos psicológicos, embarcados originalmente nos âmbitos da filosofia. Em seguida e com o surgimento das pesquisas nas ciências passou a ser objeto de reflexões e estudos na psicologia, na biologia e na neurociência.   No século XVII, René Descartes foi um dos primeiros a tentar conceituá-la e a definiu como a habilidade de pensar.  Dizia que a mente é fisicamente distinta do cérebro, que a mente (ou “alma”) é imaterial, mas está localizada na glândula pineal do cérebro, que o corpo é uma máquina mecânica e material; que a mente pode controlar o corpo físico, estimulando os “espíritos animais”  a fluir pelo sistema nervoso´. São pontos divergentes na visão da maioria dos psicólogos e posicionamento conhecido na história como dualismo (mente/corpo)(HERMETO; MARTINS; 2016). 

O médico e filósofo inglês John Locke, por volta de 1890, define a consciência como “a percepção do indivíduo daquilo que se passa em sua própria mente”.  Já o conhecido filósofo alemão Immanuel Kant, em 1781 afirma que eventos simultâneos são sentidos como uma “unidade de consciência” (HERMETO; MARTINS; 2016). 

Segundo Michael Gazzaniga (2017), a consciência é uma experiência subjetiva que ocorre momento a momento.  Significa prestar atenção às experiências que estão sendo vividas no exato momento de vida. Diferente, por exemplo da reflexão sobre os atuais pensamentos.  Segundo ele o estado de consciência ocorre à medida que o sujeito está vivenciando a experiência por meio dos seus sentidos, à percepção dos seus próprios pensamentos, sensações, sentimentos e memórias.  Tem-se também que cada pessoa vivencia a consciência de uma maneira muito individual e única.

O psicólogo americano William James, autor de vários trabalhos na Psicologia, comparou as experiências cotidianas de consciência a um rio que flui continuamente, mesmo havendo nesse fluxo as mudanças de direções, adversidades e interrupções ocasionais. Para ele a consciência não é uma coisa e, si, trata-se de um processo. É dele essa frase: “A consciência não se apresenta a si mesma aos pedaços. A consciência não é feita de remendos, ela flui.” (HERMETO; MARTINS; 2016).

A psicanalista brasileira Maria Homem (2022), em um dos seus conteúdos e vídeos mais recentes abordou o conceito de consciência e fez a seguinte pergunta:  o que significa estar consciente de algo?  No entendimento dela, significa que a consciência sempre se choca com o ter a consciência da não consciência.  O indivíduo somente sabe que aprendeu algo novo, que mudou sua posição frente a um objeto, quando consegue ver a posição anterior.  Nesse momento de reconhecimento da não consciência anterior reside a consciência.  Nas palavras de dela mesmo: “quando cai a ficha”.

A neurociência moderna conseguiu demonstrar a existência de mecanismos mentais que ocorrem na parte do córtex pré-frontal, responsável pelos processos mentais tais como planejamento, resolução de problemas e controle comportamental. 

Observou-se que doenças orgânicas, traumas podem alterar a anatomia e bioquímica cerebral, com impactos nas atividades neuronais, podendo resultar em sintomas físico, psíquicos e alterações de comportamento.  Um experimento adicional com uso de placebos com impactos nas atividades cerebrais também tem suscitado o interesse de análise porque observou que mesmo com a ingestão de farinha, ocorreu a produção endógena de neurotransmissores que agiram positivamente no sistema.  O pensamento interferiu na matéria orgânica (MATTOS; SILVA; GAMA; 2019).

O cérebro a cada minuto regula a temperatura do corpo, a respiração, acessando as memórias de acordo com a necessidade.  Enquanto faz isso, não há uma consciência do sujeito presente sobre essas atividades e operações cerebrais.  Apresenta-se então a questão:  Por que temos consciência apenas de certas vivências, experiências e outras não?

Dentre as diversas descobertas nesse âmbito cito a síndrome do encarceramento, um estado psicológico em que o paciente vê e ouve o que está no seu entorno, mas não consegue responder fisicamente. Foi identificada em uma das pesquisas utilizando-se os recursos tecnológicos e estímulos a respostas dos pacientes.  Em um dos casos testados os olhos eram a única forma física existente para o paciente expressar suas respostas. Outra pesquisa se deu com pacientes considerados em estado de coma e que concluíram que alguns indivíduos podem ter atividades cerebrais e se comunicarem com outras pessoas mesmo nessas condições.  Tal resultado foi comprovado por meio de uma pesquisa com 54 pacientes em coma, sendo que 5 deles conseguiram responder e controlar a atividade cerebral, na tentativa de se comunicarem (GAZZANIGA,  2017).

Figura 1  – Atividades cerebrais de pacientes em coma

Fonte: Gazzaniga (2018)

As imagens cerebrais acima foram extraídas do livro Ciência Psicológica e demonstram que as duas superiores são de uma jovem paciente em estado de coma e não apresentava sinais exteriores de consciência. As duas inferiores são de um grupo controle da pesquisa com pessoas voluntárias saudáveis.  O mesmo pedido foi passado aos dois (que se imaginassem jogando tênis e em seguida caminhando ao redor de uma casa) e as atividades da jovem em coma foram similares conforme imagem capturada (GAZZANIGA,  2017).

Um grupo de cientistas australianos afirma ter feito uma importante evolução nas descobertas relacionadas a pacientes em coma ao realizar um experimento buscando identificar sinais neurológicos em 13 moscas da fruta, enquanto estavam acordadas e anestesiadas.   Há questionamentos sobre a identificação da presença de consciência em moscas porque essas possuem no cérebro cerca de 100 mil células enquanto os humanos possuem 86 bilhões de células. Entretanto, eles consideram um importante primeiro passo, para que em seguida o trabalho se direcione à comprovação da consciência no cérebro dos humanos. Ainda registraram “que existe um marcador claro de excitação consciente que não depende de estímulos externos específicos” (FORATO; 2020). Este estudo foi publicado na revista Physical Review Research.

O filósofo australiano David Chalmers (2014), professor de filosofia e diretor do centro de estudos da consciência da Universidade Nacional da Austrália está sempre às voltas com esse tema nos seus artigos, pesquisas e livros, mencionou em um vídeo do Ted Talks que tem por volta de 20 anos que os neurocientistas e físicos têm se dedicado às pesquisas sobre consciência.  Desde então houve múltiplos trabalhos científicos mas que apresentam limitações. Os estudos se concentram nas correlações entre áreas do cérebro e alguns estados de consciência.   Atualmente entendemos muito mais sobre as áreas do cérebro e certas experiências conscientes como a visualização de rostos, a sensação de dor, a sensação de alegria, mas de fato não se sabe ainda por que ocorrem. Na visão dele, não há problemas fáceis com a consciência.

No âmbito da psicologia, a consciência é um dos objetos de trabalho do profissional psicólogo na abordagem humanista.   De acordo com o norte-americano Carl Rogers, os indivíduos são únicos na forma de perceber o mundo, são dotados de uma natureza essencialmente positiva e que são movidos constantemente em busca de autorrealização.  Segundo Branco; Sirino (2015), na abordagem humanista de Rogers, a noção de consciência reflete um contexto de circulação de ideias psicológicas funcionalistas e pragmatistas elaboradas no desenvolvimento da sua teoria de personalidade e na terapia centrada no cliente. Nessa teoria as percepções conscientes são mencionadas como a possibilidade dos seres humanos de pensar e refletir objetivamente sobre o mundo ao seu redor e realizar suas escolhas, tomar decisões.   Já as inconscientes são às que escapam a essa capacidade de pensar sobre elas.   Considera que as percepções conscientes são determinantes no comportamento de um indivíduo psicologicamente saudável.   Quanto mais saudável psicologicamente é o indivíduo, mais são seus comportamentos são conscientes, aspectos aos quais é possível pensar objetivamente.  Nesse caso, a consciência é sinônimo de percepção, uma resposta a estímulos verificáveis.   Assim há um entendimento de que a consciência é como uma operação que simboliza tudo que se passa na experiência da pessoa e é elaborado por ela (BRANCO; SIRINO; 2015). 

Já o psicólogo Carl Jung, citado por Barrett (2015), diz que a consciência é uma condição prévia do existir. Ao escrever sobre ela ressalta que sem a consciência,  não haveria, na prática, o mundo, porque este só existe na medida que está conscientemente refletido e considerado por uma psique. 

Segundo Barrett (2015),   podemos definir a consciência como uma faculdade mental que nos permite estar cientes  do que  está ocorrendo ao nosso redor e experimentar nossos sentimentos; extrair significados,  para tomar nossas decisões sobre como reagir ou responder às questões que nos são colocadas,   de forma a satisfazer nossas necessidades.  Completa ainda que sem ela, a consciência, não seriamos capazes de identificar as ameaças à nossa sobrevivência nem mesmo as oportunidades para satisfazer nossas necessidades, sejam elas quais forem.

As teorias certamente continuarão a percorrer os caminhos da ciência na contínua busca para elucidação da consciência humana.:

“…pela neurobiologia é possível demonstrar e compreender como o cérebro se conecta com o mundo externo e gera respostas frente aos estímulos. Entretanto, a biologia ainda não conseguiu explicar como a atividade cerebral gera a consciência. O que se tem até agora são teorias.  (MATTOS; SILVA; GAMA, 2019, p. 7).

As evoluções encontradas, especialmente com os pacientes em estado de coma ou síndrome do encarceramento, evidenciam e estimulam novos esforços nesses caminhos. Os avanços registrados nas áreas das neurociências que identificam atividades no sistema nervoso de acordo com contextos e estímulos externos,  são notáveis;  e abrem novas perspectivas para estudos e explorações de mais conhecimentos na área. 

Cada um dos pensadores e pesquisadores, dentro do seu contexto histórico e área de conhecimentos, buscou respostas e compreensões sobre esse incrível diferencial da espécie humana que é a consciência.   Entretanto quando se trata de defini-la ainda pairam muitas dúvidas e incertezas.

O americano William James, considerado por eles, o pai da Psicologia aponta que: “Sabemos o significado de “consciência”, contanto que ninguém nos peça para defini-lo.” (HERMETO; MARTINS; 2016).

Concluo pois, dizendo que, embora avanços significativos tenham ocorrido no campo das neurociências, permanece viva e instigadora a necessidade de maiores estudos em busca de compreender cientificamente a consciência.

“A neurociência ainda passa pela fase da infância. Muitas teorias surgem, e há diferentes percepções e levantamentos com diferentes perspectivas, visto que o campo é interdisciplinar. Espera-se que, ao atingir a maturidade, possa nos fornecer respostas que permitam comprovação científica para o problema da consciência.” (MATTOS; SILVA; GAMA, 2019, p. 7).

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Esse é um relatório em formato acadêmico (por essa razão possui referências) e seu conteúdo, portanto, é um compilado de muitas fontes diferentes listadas abaixo.

Darlene

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Referências Bibliográficas

BARRETT, Richard. Coaching Evolutivo: uma abordagem centrada em valores para o potencial humano. Tradução Maya Reyes-Ricón – 1. Ed. – Rio de Janeiro: Quality-mark Editora, 2015.

BRANCO, P. C. C.; SIRINO, S. D. Reflexões sobre a consciência na fenomenologia e abordagem centrada na pessoa.   Revista Interinstitucional de Psicologia,  2015. Disponível em:

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/gerais/v9n2/v9n2a07.pdf .  Acesso em 18 abr. 2022.

FORATO, Fidel. Cientistas desvendam um dos maiores mistérios do mundo: a consciência existe?. Canaltech.com.br. 20 ago 2020.  Disponível em: https://canaltech.com.br/saude/cientistas-desvendam-um-dos-maiores-misterios-do-mundo-a-consciencia-existe-165807/ . Acesso em 13 abr. 2022.

GAZZANIGA, Michael.,  Ciência psicológica,   Quinta edição,   Porto Alegre : Artmed, 2018.

HERMETO, C.M;  MARTINS, A.l;  Livro da Psicologia. Segunda  edição,  São Paulo: Globo Livros, 2016

HOMEM, Maria;  Afinal, o que é consciência?.  Canal You Tube Maria Homem. https://www.youtube.com/watch?v=1EuS6dTkjtw,  Acesso em 12 abr. 2022.

MATTOS, S.K.M;  SILVA, P.G.; GAMA, F.R.;    O problema da consciência:  onde começar o estudo?.  Revista Brasileira de Educação Médica, 43 (1), jan-mar. 2019. Disponível em:

https://www.scielo.br/j/rbem/a/FtHDcZpysc4F6yXKnmKRqMj/?lang=pt#.  Acesso em 11 abr. 2022.

CHALMERS, David.   How do you explain consciousness?.  Ted Talks; 2014.  Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uhRhtFFhNzQ. Acesso em 15 abr. 2022.

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