Toma a embalagem pelo conteúdo.

No Brasil das décadas de 50, 60 e 70 os carrões faziam o maior sucesso: Dodge Dart, Landau ou Studebaker. Eram coqueluches. Tão logo o primeiro Studebaker chegou na pequena cidade interiorana de Araxá foi adquirido pelo meu avô materno, um declarado apreciador das máquinas: motos, carros e caminhões em geral. Um sujeito simples e despretensioso, dono de uma bela história de vida e trabalho foi pauta de comentários maldosos alheios: “mas como ele pode comprar um carro se nem roupa pra vestir direito ele tem.” Sr. Domingos, o dono da concessionária, respondia a esses comentários com gosto: “sim, ele comprou e pagou à vista”.

Imagem de Lisa Larsen por Pixabay

Eu mesmo já entrei em shoppings caros e lojas sofisticadas vestida de forma simples e por esta conta sequer tive a atenção das vendedoras. Situações análogas sob o ponto de vista de “percepção” e que denunciam a cultura de valorização da imagem, da valorização do “TER” , do suposto “sinal aparente de riqueza”, e das condutas exercidas por um expressivo número de pessoas. Nada contra a posse de produtos e bens. O que trago aqui é o “valor” humano que se é dado mediante a sua “propriedade”.

Esta análise poderia ser ampliada a muitos outros caminhos de preconceitos, mas não é o caso aqui. Eu recordei de várias destas passagens e vivências ao ler um pequeno trecho do discurso feito por Mia Couto, num Instituto de Ciências e Tecnologia de Moçambique, publicado na integra no livro dele “Se Obama fosse africano?“. Ele compartilha muito bem sua visão desta cultura e da importância de promover mudanças.

Transcrevo parte do texto de Mia aqui:

“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Recordo-me que certa vez de quando fui comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível”. O termo é curioso: “compatível”.

Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objeto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.”

Onde estão reais pobrezas? As pobrezas de espírito, as pobrezas de amor e afeto?
Que condutas podemos ter na nossa esfera de influência para contribuir nesta mudança?

Saudações,

Darlene Dutra

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