Mulheres, menstruação e etc – grounding #11

Eu me vi por várias vezes confirmando o meu entendimento do  “inglês nepalês” durante um café numa aldeia do interior do Nepal e o mais crítico era que estava correto, embora preferisse que não porque foi durante estas conversas, com um guia nativo, que me deparei com questões culturais difíceis de acreditar para o meu modelo mental.

A história de muitas aldeias conta que “elas”, as mulheres nepalesas, são obrigadas a saírem de suas casas uma vez por mês, de cinco a sete dias, enquanto passam pelo período menstrual.  Desconvidadas ao próprio lar elas precisam se abrigar do frio,  por sua conta e risco, em pequeninas cabanas, muitas construídas por elas próprias ou em currais nos fundos de suas casas.  São consideradas tóxicas e impuras para convivência durante esta fase com o argumento de que são portadoras de má sorte.  Dizem algumas pessoas locais que caso elas entrem nas casas das famílias três coisas ruins acontecem:   a entrada de um tigre, o incêndio da casa e o adoecimento do dono.

Trata-se de uma crença milenar, em parte do Hinduísmo,  conhecida por  “chhaupadi” – significa impureza – e que ainda perdura nos dias atuais, principalmente nas menores aldeias do interior do Nepal, onde um desenvolvimento mínimo ainda está longe de acontecer,  onde há muita pobreza e pouca escolaridade e onde as crenças, os costumes e hábitos têm uma presença forte que chega a estarrecer.    Muitas mulheres, principalmente as  jovens,  chegam a morrer nesses abrigos temporários seja pelo frio,  pela inalação de fumaça (que acendem para se aquecer)  ou vítimas de ataques de animais.

Transcrevo aqui três depoimentos de jovens nepalesas citadas numa reportagem do Jornal de Notícias, de 11.02.2018, texto de Rita Salcedas.

As mulheres do lugar também passam por uma outra situação de discriminação quando se tornam esposas e recebem uma marca no alto da cabeça.  Caso venham se separar por algum motivo ou tornem-se viúvas nenhum outro homem se aproximará mais delas por acreditarem que elas emanam má sorte e coisas ruins podem lhes acontecer.

Meus passos foram lentos e um tanto reflexivos numa destas aldeias ao constatar um estilo de vida  bastante arcaico, primitivo e dominado por crenças;  absolutamente precário no que se refere ao saneamento básico onde a água  para beber ainda é capturada de cisternas (estudo em 2015, pela National Planning Comission menciona que somente 37% das casas nepalesas possuem rede sanitária – fonte no final), e o banho – não sei bem como – ocorre num local público coletivo. 

Sobre a questão feminina no Nepal ainda existem outras realidades merecendo uma atenção especial, como o casamento de crianças, embora seja uma ação ilegal. O jornal da cidade (The Kathmandu Post) fez uma reportagem sobre esta prática frequente nas comunidades próximas não obstante as inúmeras campanhas e esclarecimentos que são feitos. Muitas delas interrompem os estudos para casar e morar com seus maridos. Pessoas da comunidades “Chepang” acreditam ser econômico casar as crianças mais cedo, elas tornam-se força de trabalho extra.

Recorte do “The Katmandu Post”, de 07.03.2020

Sobre estas práticas o governo federal anunciou um plano de erradicação de casamentos com crianças até 2030, mas algumas províncias são mais ambiciosas e querem alcançar a meta ainda em 2022.

São acontecimentos e evoluções de uma nação em meio a um verdadeiro caldeirão de tradições, religiosidades, crenças e superstições que além de milenares são adimensionais.  

Levei um tempo “processando” tudo que vi e ouvi ponderando sobre como ainda existem tais realidades em pleno século XXI quando o acesso às informações de toda ordem está em franca expansão pelas redes. Para o meu jeito de pensar foi difícil ver como as fortes crenças movem uma cultura, uma sociedade,  e as dificuldades de mudanças arraigadas nas mentes. Muitas jovens (cabanas menstruais), em detrimento de uma maior consciência e mais esclarecimentos  acabam por seguir as tradições  para não perder os vínculos familiares,  por vergonha ou por pressão social.  As superstições ainda amedrontam muito as pessoas.

Tendo em vista tudo isso os movimentos voltados a promover mudanças culturais  e de direitos humanos têm se apresentado mais fortemente. Leis foram instituídas penalizando as práticas da “cabana menstrual” mas a sociedade ainda não está totalmente adaptada à sua aceitação e principalmente à sua prática. Em 2008,  o Ministério das Mulheres, da Criança e Previdência Social promulgou diretrizes nesse sentido, mas considerou a adesão incompleta.  Ativistas de direitos humanos tem atuado para que a aplicação da lei seja efetiva e o governo posiciona-se contra este costume, tendo registrado em 2019 uma primeira prisão relacionada a esta prática com muitas controvérsias por parte da população  (saiu mediante pagamento de fiança).  A percepção é de que as pessoas não se importam e alegam que estes costumes são parte da cultura delas. 

Um dos guias com os quais conversei demonstrou ter  uma visão clara deste panorama e os considerou impróprios completando sua visão sobre a lentidão em que ocorrem as mudanças.   Ele deposita sua esperança de transformação para o futuro nos jovens que estão estudando e estão mais esclarecidos. 

Pois é. Isto ainda existe.

Sabe aquela frase do Klink que menciona que  “deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”.   Então, eu estive aqui.  E a palavra que não me escapa da mente hoje é liberdade.

Deixo uma pauta hoje:  Sempre estamos inseridos na nossa cultura de origem, lugar onde nascemos e vivemos a maior parte da vida e isto de certa forma nos “anestesia”  e nos deixa  “acostumados”  a uma série de costumes, hábitos, crenças e etc.   Na sua visão o que seria “prioritário”  em termos de “mudança cultural” para uma evolução mais rápida do nosso país? 

Me escreva e conte o que pensa!!!

Até sempre por aqui.

#euestiveaqui #groundingaroundtheworld #humanidadespelomundo #grounding #desenvolvimento humano #humanidades #darlenedutra #multiculturalidade #conhecimento #knowledge

Leia mais sobre este e outros temas da região aqui:

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/06/140619_deusa_nepal_mv

https://oglobo.globo.com/sociedade/celina/mulheres-do-nepal-morrem-por-causa-de-tabu-sobre-menstruacao-24162611

https://noticias.r7.com/internacional/nepal-tenta-acabar-com-habito-de-exilar-mulheres-na-menstruacao-27012019

https://www.publico.pt/2019/12/27/impar/noticia/nepal-luta-cabanas-menstruais-mulheres-terem-morrido-causa-pratica-1898580

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