Conhecimento “prático”

“Não se deve adquirir o conhecimento como se adquire uma coisa que ocupe momentaneamente um lugar em nossa memória.

Um conhecimento não é nada se ele não se transforma em algo que nos modifique.

Assim, ao contrário do que se crê, o conhecimento nunca é senão um meio, não um objetivo; e o objetivo é descobrir por meio dele uma das potências de nossa vida secreta.”

O Erro de Narciso – Louis Lavelle

By Carl Jung Sincero

(creditos ao amigo Rodrigo Diniz)

(

Por onde passa a experiência de escutar..

A gente fica triste e ou mesmo chateado quando há um “desentendimento” na experiência de troca com o outro, com nossos afetos mais queridos. Recordo de um professor do MBA dizendo que às vezes nossos entendimentos percorrem uma linha paralela aos do outro. E linhas paralelas nunca se encontram.

Escutar hoje em dia, em meio à cultura do rápido, da conhecença rasa tornou-se um desafio gigante.

O ato de sair da caverna, de escutar o outro pressupõe consciência, pressupõe um querer valioso, pressupõe abrir minha de estar sempre certo e cheio de razões.

Vamos combater a tristeza pelo caminho do conhecimento. “O conhecimento é o único bem verdadeiro que temos”, segundo Espinosa.

O ato de escutar pode ser transformador… o vídeo abaixo pode colaborar com essas reflexões.

Gosto muito do texto do  ESCUTATÓRIA (por Rubem Alves) sobre esse tema. Transcrevo aqui:

“A mente e os pensamentos, por vezes, entram em estado de puro alvoroço. Por um motivo ou outro. Ou mesmo por motivo nenhum. Esse texto do Rubem Alves pode ajudar. Ele nos convida a um reposicionamento de imediato. Uma maior calmaria para alma. Como se fosse uma atualização de “setup” do modo “ouvir”.

Compartilho contigo e espero que também curta e encontre elementos de valor. Leia com calma, sem pressa, desfrutando das palavras.

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise…) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada…“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto… “

Rubem Alves, do Livro, (O amor que acende a lua, pág. 65.)

Patrocínio: www.pothum.com.br

Prometo (Maria)

Gugelhupf, Cake, Bowl Cake, Pot Pie

Se eu pudesse te mandaria um bolo de côco.
Côco daquele original, da Bahia.
Tão gostoso, que vai lhe fazer esquecer teus revezes….
“Rapidinho. Com jeitinho!
Vai sem cartão, sem aviso, sem recado mesmo.
Mas saberás… que fui eu.
Disso não terás dúvidas, afirmo.
Fico de cá torcendo.. pra que ele te encha a alma.
De sabor… de humor…
De delicadezas sublimes inerentes aos bons.
Prometo… irás degustar cada um dos ingredientes,
Sutis que sejam.
E tanto quanto eu…
Divertidamente…
As passagens simples da vida carregam esse dom…
De nos quebrar por dentro….. fazer brotar sentimentos.
Rirás muito, talvez até a barriga doer.
Hoje, amanhã e sempre….
Porque rir, já disseram, é um santo remédio..
E com um bolo desse…. Ahhh se não cura!

Maria

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IA – o futuro passa por ai…

A série “Black Mirror” apresenta episódios imperdíveis, pra não dizer pertubadores. Estimula reflexões importantes sobre vários dilemas alusivos ao uso das tecnologias substituindo ou reposicionando as habilidades humanas, e seus riscos e perigos. São verdadeiros exercícios mentais de ordem prospectiva que apresentam elementos formidáveis para conceber futuros. Pensar o futuro, literalmente.

Vr, Virtual, Virtual Reality, Technology
From pixabay

Os desafios que o desenvolvimento tecnológico têm despertado são adimensionais. Há pouco tempo escrevi uma postagem – O que você anda fazendo nas redes – com a intenção de iluminar alguns riscos no uso indiscriminado das redes. Infelizmente a maioria de nós não se imagina como vítima de ataques e problemas digitais. É preemente ampliar a atenção para esse tema.

Um dos autores mais lidos da atualidade, o israelense Yuval Noah Harari – autor de best-sellers internacionais – esteve no Brasil recentemente apresentando suas ideias sobre temas relevantes, e este é um deles. Suas falas e textos reforçam sobremaneira aspectos relacionados à mudanças na vida dos indivíduos e a necessidade de estar melhor preparados para tal. Essa frase dele, do último livro nos convida a pensar:

Em 2018 a pessoa comum sente-se cada vez mais irrelevante. Um monte de palavras misteriosas são despejadas freneticamente em TED Talks, think tanks governamentais e conferências de alta tecnologia — globalização, blockchain, engenharia genética, inteligência artificial, aprendizado de máquina —, e as pessoas comuns bem podem suspeitar que nenhuma dessas palavras tem a ver com elas. A narrativa liberal era sobre pessoas comuns. Como ela pode continuar a ser relevante num mundo de ciborgues e algoritmos em rede? ”

Yuval Noah

A inteligência artificial já é uma realidade. Promove evoluções brilhantes e necessárias à sociedade. Cito, por exemplo, um dos lados positivos: uma pesquisa realizada pela consultoria americana DuckerFrontier (a pedido da Microsoft) e publicada pela “The Shift”, que menciona que o uso da IA (Inteligência artificial) em vários setores da economia pode promover crescimento (CAGR) do PIB – Produto interno bruto, para 7,1% ao ano, até 2030. Entretanto, é inegável a diversidade de propósitos e finalidades com a sua utilização. É sobre o bem e o mal.

A dominação de indivíduos por meio da tecnologia, em vários aspectos da vida, seja na influência velada para o consumo, seja na interferência para tomada de decisões de carreira, e outras, acende sinais de alerta. Fazer frente a essas questões pressupõe ampliar conhecimentos, mergulhar profundamente no entendimento de quem somos, sobre nossas reais necessidades e sobre o contexto em meio aos “aparatos” todos. (algoritmos, robôs, neuromarketing, etc).

A série que comentei no início dessa postagem pode ser um caminho divertido e prático para essa ampliação de consciência sobre o assunto e para elaboração mental de novas visões a respeito. Proponho esse dever de casa… rs. Se topar, compartilhe comigo suas elaborações, reflexões a respeito. Vou gostar.

Até sempre,

Da

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“Embora os desafios não tenham precedentes, e as discordâncias sejam intensas, o gênero humano pode se mostrar à altura do momento se mantivermos nossos temores sob controle e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões. “

Yuval Noah