Sobre o que você mudou de opinião recentemente? (Filipe D.Nunes)

Nov 7 · 7 min read

Ouvi essa pergunta no Tim Ferriss Show e fiquei intrigado. Peguei um papel e comecei a rascunhar algumas respostas. Não é uma pergunta fácil de se responder sem tirar alguns minutos para pensar. Mesmo quando você pensa em algo, não é imediatamente claro o que te fez mudar de opinião e nem quando a mudança aconteceu.

Mr. Ferriss é criterioso com suas perguntas, sempre escolhendo uma construção que ajude o entrevistado a pensar e responder. Nesse caso, ele assumiu que mudar de opinião é algo desejável, não perguntando se o entrevistado tinha, de fato, mudado de opinião sobre algo.

Minha intuição diz que ele está certo.


Por que mudar de opinião é algo desejável?

Embora minha primeira reação tenha sido que sim, ter a capacidade de mudar de opinião é desejável, as razões só ficaram claras quando coloquei as ideias no papel. Cheguei à seguinte conclusão:

A capacidade de mudar de opinião influencia a capacidade de se viver plenamente.

Ãn? Como assim?

Minha lógica é a seguinte…

Meu objetivo é viver a vida até a última gota. Extrair o máximo possível de vida do tempo que tenho no planeta azul. Na vida existem coisas que controlo e coisas que não controlo. A abordagem deveria ser me adaptar ao que não controlo e gerenciar da melhor forma possível o que está ao meu alcance. Meu sucesso em fazer isso aumenta proporcionalmente à qualidade de minhas decisões. Decisões influenciam valores, hábitos, identidade, uso do tempo.

Para tomar melhores decisões preciso enxergar o mundo como ele é e não como gostaria que ele fosse — idealmente não confundindo o mapa com o território. Se o mundo muda, preciso continuar aprendendo, me adaptando, o que pressupõe um intake de novas informações e conceitos, e uma adaptação de métodos, frameworks e mapas mentais. À medida que tenho novos inputs, atualizo minha visão de mundo e tomo a melhor decisão possível naquele momento. Se isso significa mudar de opinião sobre algo, que seja! Se levo em consideração o que tenho ao meu dispor, e tomo a melhor decisão possível, opiniões passadas deveriam ser irrelevantes. Não?

“Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. O que você faz, sir?”
– Frequentemente atribuída a John Maynard Keynes

Se essa lógica é válida, mudar de opinião deveria ser algo comum, mas não vemos isso com frequência — incluindo em nós mesmos.

Na verdade é mais complicado que isso.


Por que mudar de opinião pode ser difícil?

A natureza humana e o mundo atual muitas vezes jogam contra nós.

1. Não pensamos para decidir, pensamos para justificar nossa decisão

Apesar de pensarmos que tomamos decisões racionalmente, com base em fatos, análises e ponderações, pesquisas mostram que, quando abordamos assuntos relacionados à moralidade, tomamos decisões emocionalmente e instintivamente, usando a parte automática do cérebro. Somente, em seguida, utilizamos a parte racional, não para decidir mas para justificar a decisão já tomada.

Jonathan Haidt aborda esse mecanismo contra-intuitivo em “The Righteous Mind”“Pensamos moralmente não para reconstruir as razões pelas quais nós mesmos chegamos a um juízo; pensamos para achar as melhores razões possíveis para que outros se juntem a nós em nosso juízo.”

Nossa intuição vem primeiro, depois nosso racional. O rabo abana o cachorro. Ou seja, se queremos mudar a opinião de alguém, inclusive a nossa, precisamos chegar ao emocional de alguma forma e não somente usar o racional. Isso explica em parte a dificuldade de colocar aquela lógica ali de cima em prática.

2. Vivemos em bolhas de informação que confirmam nossas opiniões

Somos atraídos por pessoas que se parecem conosco. Inconscientemente. São mais relacionáveis, o contato parece ter menos risco de rejeição. É mais provável que essas pessoas tenham opiniões parecidas às nossas. Quando nossas opiniões são confirmadas, ficamos mais seguros e confiantes que essa é a melhor opção. Quanto mais seguros estamos, menos buscamos opiniões divergentes. De repente estamos vivendo numa bolha com viés confirmatório.

Essas bolhas de informação podem se formar naturalmente ou serem potencializadas pela tecnologia. Se os algorítimos do Google e Facebook querem otimizar nossas buscas levando em consideração buscas anteriores, localização, comportamento de clicks na web, etc., nossos resultados sob medida não necessariamente trazem um mix diverso e extrapolável de páginas com posições diferentes sobre determinado tópico.

[Existem estudos contraditórios sobre os efeitos de mídias sociais e sites de busca na potencialização dessas bolhas e consequente polarização. Mas mesmo se acessamos sites diretamente, por exemplo, de política. Se sou de esquerda, a tendência é que navegue em sites de direita tão frequentemente quanto nos de esquerda, pra calibrar minhas impressões? Acho que não.]

Opiniões confirmadas são opiniões enraizadas. Opiniões enraizadas, por definição, são menos passíveis de mudança/atualização.

3. Opiniões passam a fazer parte da identidade

Algumas opiniões, reforçadas ao longo do tempo, passam a fazer parte de nossa identidade. Isso é particularmente verdade se essas opiniões forem compartilhadas publicamente.

Se você fala para todos seus amigos, conhecidos e colegas que você é vegano, argumenta sobre a necessidade de se mudar nossa relação com os animais, fazendo vídeos sobre o tópico, é menos provável que você leia artigos científicos que abordem os potenciais downsides nutricionais do veganismo, mesmo que eles sejam cientificamente confiáveis. É mais provável que você não queira ouvir os argumentos de alguém que seja 100% carnívoro. Não porque você é uma má pessoa, mas porque esse rótulo está tão enraizado em quem você é, que você inconscientemente rejeita quem não concorde com você. (E quando eu falo você, quero dizer nós)

Defendemos quem somos com unhas e dentes. Queremos ser consistentes com a forma que vivemos até então. Mudar é desconfortável e o instinto de defender nossa identidade turva nossa capacidade de buscar ativamente e avaliar racionalmente novos pontos de vista.

Opiniões enraizadas podem se tornar parte de nossa identidade e mudar nossa identidade é desconfortável.

4. Excesso de confiança é recompensado

Políticos que mudam de opinião sobre um determinado assunto são vistos como “vira-casaca” ou são acusados de negociar influência. Gerentes de empresas que mudam de opinião sobre uma estratégia de mercado perdem credibilidade com o time, especialmente quando o trabalho feito até ali vai ter que ser refeito. “Ele não sabe o que quer!”

O mundo é probabilístico. Existem graus de certeza e incerteza sobre qualquer posição que tenhamos, mas raramente vemos alguém falando: “Tenho 60% de confiança que nossa estratégia vai dar certo. Não é o ideal, mas é o melhor que temos nesse momento.” Não soa convincente, não empolga o time, não sai bem no vídeo. Mudar de opinião e dizer que estava errado menos ainda.

O mundo é probabilístico mas percepção é realidade. Na maioria das vezes parece ser melhor projetar confiança omitindo riscos do que comunicar a incerteza sendo totalmente sincero.

O candidato bem articulado e pouco lógico é mais bem recebido do que o candidato menos articulado e super lógico. O líder confiante fez o dever de casa, sabe onde quer chegar e inspira seus seguidores. Confiança recompensada. E o que é recompensado é repetido.

Triste, mas real. [Minha percepção de mundo está muito pessimista aqui?]

5. Dá trabalho

Precisamos de capacidade mental para “escapar do tigre e caçar o jantar”, então automatizamos o que for possível. Nossos hábitos são formados para isso e se construímos uma opinião sobre algo, é mais fácil manter essa opinião do que reavaliá-la a todo momento.

Normalmente temos opiniões fortes sobre assuntos polêmicos. Assuntos polêmicos normalmente são complexos e discutir assuntos complexos requer tempo, disposição, e lucidez.

  • Tempo para definirmos os elementos de construção sobre os quais nossa opinião se apoia. Muitas vezes partimos de conceitos diferentes. Digamos que sou a favor da legalização das drogas. Não faz sentido discutir os prós e contras sem antes definir o que significa legalizar e de quais drogas estamos falando. Palavras podem significar coisas diferentes para pessoas diferentes e sem estabelecer um terreno comum a discussão se transforma numa competição de quem fala mais alto. Uma entrevista de 5 minutos na TV não é suficiente para argumentar sobre um assunto complexo. Um dos motivos que formas de mídia mais longas (e.g. podcasts) estão cada vez mais relevantes. Mais complexidade = maior o tempo necessário para a discussão.
  • Disposição para engajar e ouvir outros pontos de vista. Digo disposição porque é preciso investir energia para controlar nosso instinto. Nosso instinto é ouvir para contra-atacar. Para evitar que isso aconteça, precisamos engajar ativamente com o intuito de entender a lógica do argumento e a validade de novas informações. É uma prática constante. Lembrar que o objetivo é sair conjuntamente com a melhor opinião possível e não “vencer a discussão” pode ajudar. Mais forte nossa opinião = mais difícil de controlar nosso instinto.
  • Lucidez para entender que assuntos complexos são complexos por um motivo (por vários, na realidade!) e que provavelmente não existe uma opção claramente melhor – uma bala de prata que funcione para todos, em todos os lugares, sempre. O objetivo deveria ser promover o diálogo, testar nossas hipóteses e refinar nossas posições.

“Eu nunca me permito ter uma opinião sobre qualquer coisa antes de saber os argumentos de minha contraparte melhor que do que ela.”
— Charlie Munger

Não precisamos chegar ao nível de Munger, mas podemos caminhar direcionalmente a ele. Dá trabalho! 😁


Dito tudo isso, o objetivo de se viver a vida ao máximo continua. Chego a conclusão de que tomar melhores decisões passa:
1) Pela busca ativa de opiniões divergentes e outras visões de mundo
2) Por reconhecer nossos instintos e aprender a conviver com eles

Calibrar nossas opiniões e refinar nossa visão de mundo toma tempo e é desconfortável no curto prazo, mas dada sua alavancagem e seu efeito acumulativo, no longo prazo, a conta parece fechar com folga.

Quando ouvi a pergunta no podcast não imaginei que viria parar aqui. Acho que acabei refinando minha opinião sobre ter opiniões. (ba-dum ching!)

E você? Sobre o que você mudou de opinião recentemente?


Resumo

Por que mudar de opinião é algo desejável?

A capacidade de mudar de opinião influencia a capacidade de se viver plenamente.

Por que mudar de opinião pode ser difícil?

A natureza humana e o mundo atual muitas vezes jogam contra nós.

1. Não pensamos para decidir, pensamos para justificar nossa decisão
2.
 Vivemos em bolhas de informação que confirmam nossas opiniões
3. Opiniões passam a fazer parte da identidade
4. Excesso de confiança é recompensado
5. Dá trabalho

Ainda assim vale a pena!

Filipe Dutra Nunes

WRITTEN BY

Filipe Dutra Nunes

Following Write the first response

Lindaaaaa!

Intencionalmente entrei na organização contando os passos e olhando a fisionomia das pessoas: seus olhares e suas expressões. Fui desenhando mentalmente uma fotografia viva e coletiva. Este “retrato”, normalmente, me diz muito dado que sou uma observadora interessada na “humanidade”. rs

Naquele curto trajeto alguns poucos responderam aos meus estímulos e cumprimentos básicos, outros sequer olharam nos meus olhos. Tenho aprendido que um conjunto de seres contam muito sobre a cultura do lugar e do grupo do qual pertencem. Expressões, gestos, comportamentos e ações representam bem a comunidade, a forma de serem “juntos”.

Não localizei o fotógrafo para os devidos créditos (from pinterest)

Uma negra linda de cabelos coloridos respondeu-me com um sorriso genuíno quando fiz menção de sua beleza extravagante. Tive vontade de fotografá-la. (adoro fotografia), não somente pela beleza física, mas pelo que transmitia. Forte e leve ao mesmo tempo. Segura de si. Tem gente que é assim, naturalmente radiante. Comove. Manifesta-se no mundo. Tem aqueles que simplesmente sobrevivem a ele. Mortos indigentes vivos. Perambulando por ai.

É uma arte a forma como cada um escolhe e “consegue” viver. Saborear, desfrutar, ou morrer um pouco a cada dia.

Bjo,

Darlene

Desesperar jamais…

Ontem, por um aplicativo de mensagem, uma grande amiga de Minas me perguntou há quanto tempo estou lidando com essa situação. Foram-se dois anos e meio ou mais. Perdi a conta! Dependendo do contexto, da circunstância, dois anos pode ser considerado “pouco”. Não pra mim. Neste inacabável período, convivi com o desconhecido, incertezas, com vários momentos de frustração e desânimos que beiravam a apatia. Relembro esforços inúteis na investigação de uma dor persistente e chata. Na verdade, muuuita dor. Limitante.

Enveredei por várias especialidades médicas, clínicas e exames. Ingeri medicamentos fortes pra ‘segurar a onda’ quando o mar estava revolto!! Verdadeiros “sossega leões” que me levaram, inclusive, até a Califórnia. Senti alguns dos seus efeitos colaterais no estômago e nos tufos de fios de cabelos ao chão, rs… (Um parênteses aqui ao mencionar o impacto para as mulheres, quando se trata de “cabelos”). rsss, Também não faltaram as inúmeras sessões de acupuntura e fisioterapia!!

No meio do imbróglio projetos e planos foram desviados para “o oxigênio” – termo que uso pra designar o “ponto de espera”, o modo “reserva”. Eu o aprendi com o Motomura, um dos meus educadores. Enfim, resignei-me, repensei direções, desenhei e agi com passos novos, diria adaptados. Tudo para lidar com o chamado “fracasso” frente a um “bicho desconhecido”. Confesso que tive dúvidas sobre a possível retomada dessas iniciativas.

Como “consultora de desenvolvimento executivo e de profissionais de gestão”, sempre compartilhei o conceito de “RESILIÊNCIA”, o que de forma simples e pelas minhas palavras é dar a volta por cima o mais rapidamente possível, independente do que houvesse acontecido. O lapso temporal de retomada significa o grau de resiliência atingido. Fracassos são úteis sim, mas podem ser breves. Pensava comigo mesmo: preciso segurar a onda e levantar a cabeça. Hora dessas isso se resolve.

À medida que o tempo passava e não apresentavam-se soluções ou uma maior clareza da origem, muitas dúvidas sobre o futuro me acompanhavam. Afinal, não sou mais nenhuma jovenzinha. rs.

Dá-me a tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar – a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas.

Por Clarice Lispector

No decorrer desse processo cheguei a ganhar uma trégua. Alguns meses e uma esperança fez crescer a expectativa de que aquilo, o que quer que fosse, pudesse ter acabado. Infelizmente foi só um pequeno fôlego. Daí a pouco, o “monstrinho” voltou, e eu reiniciei a pesquisa. Essa frase representa bem o meu espírito naquele ponto: “é o que temos para hoje”.

Reflexões que estiveram comigo no percurso: Como segurar a ansiedade, a tristeza ou o desânimo nas antessalas diversas? Como manter o equilíbrio? Como cultivar a paciência e aliviar o cansaço na busca? Como desviar os pensamentos de “planos improváveis”? O que posso fazer com tudo isso? O que escolho fazer?

Quando meu olhar percorreu o vivido e analisei a forma como reagi a tudo me reconheci “na luta”. Algumas vezes só, outras vezes em boa companhia. Me reconheci na persistência e na teimosia em lidar com algo inquietante. Conversas com amigos que conviveram com sintomas similares me acordaram para alguns novos aspectos. Vestida de uma determinação atroz abri mais uma frente sem saber muito bem como iria terminar. Marquei com um profissional indicado por uma amiga-irmã. Lá fui eu. Novo “round”.

Não me canso de repetir: quanta gente boa tem no meu caminho, caaaaaraaaaaa!!! Com calma e impressionante experiência o doutor começou analisar a minha história, relatos, exames novos e antigos. Observou o caminho percorrido e reconheceu os excelentes profissionais pelos quais eu havia passado. Acessou tudo, inclusive laudos confusos e por vezes contraditórios, com uma tranquilidade de quem sabe o que está fazendo.

Estar nessa posição é desafiador e ao mesmo tempo, admirável. Significa ficar diante de um painel com inúmeros dados e informações e achar significados em tudo aquilo. Prá mim, uma leiga, isso me pareceu grande. Grande não, imenso. Afinal, a dor era minha. Só eu sabia seu porte e suas entranhas.

Enfim, ele diagnosticou uma situação um tanto incomum no meu quadro clínico e penso que sua experiência, competência e anos de estrada falaram alto. Pós centro-cirurgico, a dor, aquela antiga companheira das noites adentro, emudeceu-se. Ele extirpou aquilo!! Sem palavras!! (no words). Serei-lhe eternamente grata por me devolver perspectivas de vida!!! A ele e à sua equipe.

Por ser um médico desprovido de vaidade, diferente de muitos que conheço, fiquei na dúvida se ele gostaria de ser nomeado aqui. Dessa feita, optei por não fazê-lo.

Alguns daqueles planos do oxigênio começaram a ficar mais próximos!!! Possibilidades se desenham e vão fazer brilhar o meu caminho!!… eba!!

Lembrei da música do Ivan Lins e Vitor Martins, da década de 70: Desesperar jamais. Ela não deixa de ser um alento, um chamado à resiliência, paciência e persistência.

Tudo, de um jeito ou de outro, encontra seu caminho, encontra seu lugar. O que é seu é pra viver.

BJo

Segue a Letra e link com a música

Desesperar Jamais

Desesperar Jamais
Aprendemos muito nestes anos.
Afinal de contas, não tem cabimento.
Entregar o jogo no primeiro tempo.
Nada de correr da raia, nada de morrer na praia.
Nada, nada, nada de esquecer.
Do balanço de perdas e danos.
Já tivemos muitos desenganos.
Já tivemos muito que chorar.
Mas agora acho que chegou a hora de fazer valer o dito popular.
Desesperar, jamais.
Aprendemos muito nestes anos.
Afinal de contas, não tem cabimento. Entregar o jogo no primeiro tempo.
Nada de correr da raia, nada de morrer na praia.
Nada, nada, nada de esquecer.
Do balanço de perdas e danos.
Já tivemos muitos desenganos.
Já tivemos muito que chorar.
Mas…

“A arte de perder apesar de parecer desastre”

Uma arte (por Elizabeth Bishop)

Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia.
Aceite a novela das chaves perdidas, a hora desperdiçada,
aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e… para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre…

Perdi o relógio de minha mãe.
E olha, minha última e minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis.
E, mais ainda, alguns domínios, propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

– Até mesmo perder você
(a voz gozada, o gesto que eu amava) eu não posso mentir.
É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode Escrever!) desastre.

Por mais mãos como estas…

Olhava aquela lâmpada branca enorme no teto enquanto ouvia atenta as conversas na sala 14 do centro cirúrgico sobre a adequada distribuição dos equipamentos. Eles não estavam dispostos como o anestesista recomendara por mais de uma vez. A equipe trabalhava na sua movimentação visando atender o pedido.

from pixabay

Ele, o anestesista, dizia: vocês sabem sobre ergonomia? O tempo todo mostrava-se direto, franco e ao mesmo tempo educador. O ambiente estava gelado e eu, por mais que tentasse gerenciar os pensamentos, sentia frio e medo. Não sei dizer qual era o maior. rs… Algumas lembranças de seriados de hospitais visitavam minha mente. Deveriam permanecer esquecidos, seria mais fácil lidar com tudo aquilo.

Meu corpo tremia quando uma médica neurofisiologista, P., aproximou-se de mim e ao se apresentar segurou gentilmente minhas mãos entre as dela, parecendo adivinhar o tamanho da minha ansiedade. Quebrou o “gelo” ao mencionar que as dela estavam ainda mais frias que as minhas, dado o ar condicionado congelante.

Evoluíram-se as conversas e a disposição da sala foi sendo adaptada em conformidade com os pedidos e orientação do médico. Aos poucos, os equipamentos foram sendo conectados às minhas pernas, braços e tronco.

Ajustes e apontamentos ainda soavam pela voz do anestesista. Não me escapou a chamada de atenção a uma das pessoas que no canto da sala, acessava o celular. Ele fazia isso de forma educada e cortes, mas absolutamente direto e claro, o que poderia sugerir uma certa prepotência. Esta conduta talvez causasse estranheza a muitas pessoas habituadas a cultura latina (tema para outra postagem), mas não a mim. Após estudar e lidar com equipes por algumas décadas profissionalmente, reconhecia na atuação dele a pertinência exigida para a ocasião. Ele estabelecia, calma e firmemente, a autoridade necessária. E isto, por incrível que possa parecer, me tranquilizava e me gerava confiança. Para mim ele estava garantindo a minha segurança. Eram cuidados detalhados para que tudo desse certo.

Recordei-me de muitas situações profissionais e quantos esforços eram necessários para que todos cumprissem o acordado, para que tudo saísse como planejado e de forma adequada. A conhecida “eficiência” no ambiente de trabalho. Naquela sala 14 eu compreendia, dentro do meu âmbito restrito de conhecimentos, as dificuldades e riscos inerentes a esse procedimento, a expectativa em relação aos resultados esperados principalmente em se tratando de vida.

Ao conectar os equipamentos P. consultou de forma equilibrante e agradável qual dos meus braços deveria utilizar. Novamente se achegou e pegou nas minhas mãos. Pra mim era como se me entregasse a seguinte mensagem: “vai ficar tudo bem”. Ela postava harmonia ao lugar.

Recordei de um momento em Minas quando recebi uma pessoa incrível, uma jornalista de reconhecido gabarito, para ministrar um curso pelo Instituto POTHUM. Organizei tudo com a devida antecedência: local, logistica, matrículas, comunicações e o comparecimento foi especial. A sala estava repleta de muita “gente boa”, como dizemos no interior: professores, médico psiquiatra, médico neonatologista, médico anestesista, psicólogos, jornalistas, autores, mães, consultores, entre outros. No decorrer da aula nossa querida professora não sentiu-se bem. Um desconforto lhe acometera de súbito. E como nada ocorre por acaso um dos médicos presentes foi providente. Ao perceber a gravidade imediatamente orientou que fôssemos ao hospital.

Nos momentos de atendimento no pronto socorro lembro-me de colocar uma blusa dobrada para ajeitar sua cabeça e de segurar-lhe a mão. Pensava comigo que não poderia deixá-la sentir-se só. Ela só tinha a mim naquele momento, numa cidade que visitava pela primeira vez e precisava ter a segurança de estar amparada, cuidada. A vida tratou de nos aproximar e nos vinculamos afetivamente!

Nunca esqueci da manifestação dela, tempos depois, sobre como aquele meu gesto havia sido importante naquele delicado momento.

“A vida é feita de travessias e metáforas. E enfrentá-las é também um exercício diário de intensidade e de coragem.” Cris Guerra

Enfim, o universo respondeu-me por meio da inexorável lei de correspondência oferecendo-me de presente o mesmo conforto pelas mãos de uma doutora.

Hoje posso afirmar que entendo ainda mais sobre confortar.

Imagino quantas e quantas reverências humanas dessa estirpe são praticadas todos os dias em vários contextos!! Sempre penso sobre a enormidade de pessoas boas que cruzam o meu caminho e como tenho gratidão por isto!! Há muito ser humano de bem por ai.

A luz branca do centro cirúrgico já não estava tão clara. Respirando o oxigênio, calma e profundamente, … apaguei.

P.S – Extras

Ergonomia, segundo http://www.significados.com.br

Ergonomia consiste no conjunto de disciplinas que estuda a organização do trabalho no qual existem interações entre seres humanos e máquinas. Este termo se originou a partir do grego ergon, que significa “trabalho”, e nomos, que quer dizer “leis ou normas”. O principal objetivo da ergonomia é desenvolver e aplicar técnicas de adaptação de elementos do ambiente de trabalho ao ser humano, com o objetivo de gerar o bem-estar do trabalhador e consequentemente aumentar a sua produtividade.

Nado!

“Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, sensações, desejos. Contudo ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado.”

Adélia Prado

Sobre Liderança Holística…

Compartilho com você um artigo escrito por Luah e Danilo do Walk & Talk Brasil .  sobre uma nova visão do papel da liderança nos tempos atuais –  a tão necessária liderança holística.  Fiquei feliz em contribuir nesse tema, que gosto muito!!!

Transcrevo o artigo, na íntegra,  do site EXAME:
http://exame.abril.com.br/blog/o-que-te-motiva/lideranca-holistica/

O mundo está mudando para um cenário cada vez mais autêntico e múltiplo. Vivemos a era da macromudança.

E a liderança, como fica diante dessa transição?

Por Danilo e Luahaccess_time29 ago 2017, 08h20

(Rawpixel.com/EXAME.com)

O mundo está mudando, rumando para um cenário cada vez mais autêntico e múltiplo – diferente de todas as épocas anteriores. Como diz o filósofo, cientista interdisciplinar e prêmio Nobel da Paz Ervin Laszlo em seu livro “Um Salto Quântico no Cérebro Global”:

“Defrontamo-nos com uma nova realidade, tanto individual como coletivamente. A mudança se dá porque o mundo humano tornou-se instável e não mais sustentável. Mas a revolução da realidade abriga uma oportunidade única: essa é a primeira década da história que nos oferece a escolha entre ser a última de um mundo desvanecente e obsoleto, ou a primeira década de um mundo novo e viável. A realidade emergente é radicalmente nova, intrinsecamente surpreendente e anteriormente imprevista. Vivemos a era da macromudança.”

O livro, excelente por sinal, é um tratado sobre os tempos modernos e os papéis da economia, política e da sociedade frente ao novo contexto. Diante desse cenário tão disruptivo, escolhi conversar sobre o papel da liderança, que acredito, também deva romper com paradigmas obsoletos e avançar para um formato mais autêntico.

Mas afinal, quais os contornos da nova da liderança? Vamos tatear juntos?

Vejo no horizonte uma nova onda se formando, acredito que o foco da liderança, hoje em gestão de pessoas, vai começar a dividir o palco com a gestão holística. É isso aí, a “liderança holística” começa ganhar espaço em estudos, metodologias e novas ferramentas de governança.

O interessante é que muita gente ainda trata o holismo com um certo preconceito, atribuindo a tudo que é “holístico” falsas percepções. Legal então definirmos o termo antes de seguir: A palavra holístico foi criada a partir do termo “holos”, que em grego significa “todo” ou “inteiro”. Já o conceito holismo foi criado por Jan Christiaan Smuts em 1926, que o descreveu como a “tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um “todo” que é maior do que a soma das suas partes.”Já a visão holística é a visão global, oposta à lógica mecanicista que é compartimentada, causando a perda da visão total.

Abro novas aspas para Ervin Laszlo: “Chegou a hora de mais uma mudança: de uma civilização de Logos (Razão) para uma civilização de Holos (Todo).

Atingir uma civilização de Holos significa passar por uma transformação que é única na História, mas que é mais rápida do que qualquer transformação que tenha ocorrido no passado. Por causa da velocidade com a qual a macromudança global de hoje está se desenvolvendo, muitas pessoas não conseguem acompanhar essas transformações: para eles, uma civilização de Holos parece utópica. No entanto, há pessoas para quem a cultura holística já é norma. E há muito mais dessas pessoas do que podemos imaginar.”

Uma vez que o holismo está alinhado à uma visão global e sistêmica, a liderança holística é a promessa de um modelo mais autêntico e integral, com olhos no futuro e nos desdobramentos da macromudança. Pedi reforço com o tema e entrevistei a consultora Darlene Dutra – diretora do Instituto POTHUM e idealizadora dos Programas 4TOUCH, TI Talento e SOS Liderança.

A primeira coisa interessante a citar é que quando trago a palavra liderança, gostaria de ampliar o foco para além dos líderes corporativos ou políticos, e Darlene me ajuda nessa expansão, contextualizando os líderes e a liderança dos novos tempos:

“Líderes não são apenas aqueles em posição de gerência, coordenação, supervisão ou chefia, mas todos que de alguma forma, seja através do conhecimento, da atitude ou forma de ser, lideram pessoas, ideias e atividades.

A liderança está em uma importante fase de transição. Hoje o acesso à informação foi amplificado, tornando a liderança mais exposta, e seu papel ainda mais desafiador. O aumento considerável da complexidade que envolve os tempos modernos – representada pela revolução tecnológica, globalização econômica, diversidade cultural, etc, convida a liderança a transcender as fronteiras de seu modelo tradicional e se reconstruir para atender essa nova realidade.”

E emenda “Nos novos tempos, os líderes são e serão ainda mais reconhecidos por seus princípios e valores – não negociáveis, e pela maior consciência de si e da missão que carregam. Holísticos por apresentarem uma visão muito mais ampla da organização ou do contexto em que estão inseridos, levam em consideração a interdependência entre os aspectos econômicos, humanos, sociais, ambientais e políticos. Suas decisões consideram variáveis que transcendem os negócios e efetivamente seus lucros, preocupam-se verdadeira e estrategicamente com a sustentabilidade social, ambiental e com os efeitos coletivos que promovem, tanto para essa geração quanto para as futuras. Estão atentos não somente aos resultados em si, mas como estes são obtidos.”

Fica fácil de perceber o alargamento de visão característico da liderança holística. Quando se amplia a conexão consigo e com o outro, a totalidade – característica primordial do holos – começa a se manifestar. A equipe passa a ser vista como um conjunto equânime onde todos tem seu valor e são interdependentes. Na visão holística, não existe uma área, parte ou grupo mais relevante, o que importa é o conjunto harmônico e o despertar do protagonismo de cada um dos envolvidos. Podemos comparar o líder holístico com um maestro que enxerga o todo e afina cada um de “seus instrumentos” para que toquem harmonicamente a melodia.

Questionei Darlene Dutra sobre quais são as características que estão presentes nos agentes dessa nova liderança. Achei mais prático distribuir as respostas em tópicos:

  • Uma das características mais relevantes é ser seu próprio exemplo. São primeiramente líderes de si mesmos.
  • Não basta parecer, é preciso SER.
  • A coerência entre o que se é e o que se pratica torna-se base fundamental.
  • Possuem uma maior consciência de suas próprias emoções e clareza sobre seus objetivos.
  • Atuam especialmente em causas e missões de interesses coletivos e não de interesses particulares.  
  • Tem o poder de articular e facilitar a realização das missões e propósitos que dirigem.  
  • São donos de uma visão crítica e de um grande senso de justiça. 
  • Os líderes para o agora e para o futuro tem o importante papel de inspirar os demais. Despertam nas pessoas o que elas tem de melhor, considerando suas necessidades e suas emoções.

Se você já exerce um papel de liderança, está em transição para cuidar de um time, pensa em se empreender ou até mesmo liderar melhor sua vida, vale a pena refletir sobre cada um dos pontos citados pela Darlene, eles ajudam na construção de uma gestão mais atual, inovadora e sistêmica.

Em todas as organizações, desde as mais simples como o lar, o bairro, uma associação, passando pelas pequenas empresas até as grandes corporações, a estrutura baseada no holos tem uma tendência mais assertiva para acompanhar as macromudanças já presentes em nossa sociedade e no mundo.

Laszlo comenta em seu livro: “A mudança de realidade que experimentamos hoje se refere à maneira como nos relacionamos uns com os outros, com a natureza e com o cosmos.” Portanto, todas as nossas interações também passam por um refinamento e a liderança não podia ficar de fora. Ela também reajusta sua rota, aprimorando a maneira de se relacionar com o outro e com o meio. Percebo também um aumento considerável de líderes buscando por caminhos de autoconhecimento e práticas relacionadas ao equilíbrio e harmonização, como Yoga, Mindfulness, Meditação, etc…, dividi essa minha observação com a Darlene e perguntei se ela considerava que os líderes praticantes desses caminhos geravam algum impacto em suas atividades profissionais.

Ela comenta que hoje existem inúmeras ferramentas, tecnologias e técnicas disponíveis para aqueles que desejam aprimorar-se. “O mergulho no “eu interior” pode sim fazer uma grande diferença, tanto ampliando a consciência sobre responsabilidades e oportunidades, como ajudando no desenvolvimento de novas capacidades. O autoconhecimento é uma alavanca sensacional, podendo conectar líderes à grandes objetivos de transformação”. E faz uma ressalva: “O simples fato de conhecer técnicas, não pressupõe seu alcance. É necessário um engajamento muito próprio e profundo afim de colocá-las em prática.”

Lembro aqui de uma curiosidade super interessante que descobrimos em nosso projeto Volta ao Mundo…

Quando passamos pelo sítio arqueológico de Tikal (Guatemala), descobrimos ao escalar a maior das pirâmides do complexo, que no topo da construção se encontrava uma plataforma quadrada de pedra coberta, com uma enorme “janela panorâmica” na frente. Perguntamos sobre a função daquela plataforma e nos contaram que era um local próprio para que o líder do clã Maia pudesse olhar a cidade como um todo (holos) e meditar sobre as decisões importantes a serem tomadas.

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E as descobertas seguiram adiante. Os descendentes dos governantes Maias ao nascer passavam por um processo de alargamento do crânio. Muitos citam que esse procedimento na região superior da cabeça e da testa tinha como finalidade aproximá-los ao formato da espiga de milho – alimento considerado sagrado pelos povos indígenas da América Central. Mas outra corrente conta que tal alargamento tinha como finalidade a abertura do terceiro olho, e assim, o despertar da intuição, da ampla visão, da consciência, enfim, do olhar holístico.

Acho que as descobertas na Guatemala são apenas um exemplo sobre esse anseio por uma visão mais consciente que o homem já buscou inúmeras vezes ao longo da História. E como conclui Laszlo no final de seu livro:

“A conexão entre uma mudança na consciência e uma mudança na civilização foi imaginada por diversas culturas nativas, incluindo a cultura dos Maias, Cherokees, Hopis, Incas, Mapuches, etc… É provável que a conquista da consciência transpessoal promova o progresso rumo a uma civilização baseada na empatia, na confiança, na solidariedade, uma civilização de Holos.” 

Que assim seja!

(Agradeço imensamente a Darlene Dutra pela contribuição.)

Por Luah Galvão

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Idealizadores do Walk and Talk, Luah Galvão e Danilo España, realizaram 3 projetos. O primeiro foi uma Volta ao Mundo por mais de 2 anos em que visitaram 28 países nos 5 continentes – para entender o que Motiva pessoas das mais variadas raças, credos e culturas. O segundo foi caminhar os 800 km do Caminho de Compostela na Espanha, entrevistando peregrinos sobre o sentido da Superação. E recentemente voltaram da Expedição Perú, onde o sentido da resiliência foi a grande busca do casal. Agora que estão de volta ao Brasil compartilham suas descobertas através de textos e histórias inspiradoras para esse e outros veículos de relevância, assim como em palestras e workshops por todo o Brasil.
Descubra mais sobre o projeto: www.walkandtalk.com.br. Conheça também a página no Facebook.